quarta-feira, 21 de outubro de 2009

segundo elemento químico mais abundante no universo

Romeu chorou um bocado. O choro sempre baixo e contido que ele costuma ter. Ali pertinho havia balões, resolvi que um de hélio poderia alegrar Romeu. Amarrei o barbante em seu pulso, enquanto ele ainda se ocupava de sua própria tristeza. Aos poucos o balão subiu, Romeu observou atento. Recomeçamos uma leve caminhada, não havia movimento pela rua. Romeu parou de andar, segurava muito forte o barbante. Agachei para estabelecer de forma mais fácil uma coversa, olhar Romeu de frente. Achei que ele iria começar a chorar. E me surpreendeu ao falar com firmeza e auto-controle. Primeiro disse que o dia estava bonito e que foi bom sair de casa. Mas eu pensei que o Mike gostaria de estar aqui, continuou, e fiquei triste por ter me esquecido dele. Sentou, e eu peguei ele no colo. Recomecei a caminhar estranhando esse dia de sol sem movimento. Romeu estava agora com cabeça ao lado da minha e cochichou baixinho. Deixei toda minha tristeza no balão, e ia pedir pro Mike fazer o mesmo. Daí as nossas tristezas iriam juntas para o céu, aí eu parei. E se o balão ficar pesado demais? Olhei nos olhos de Romeu. Se ele não voar, eu levo ele de carro pra bem longe.
Romeu entrou correndo em casa para pegar Mike, amarrou o barbante no pulso do bichinho. E ficou ali parado de mãos dadas com Mike.
Liguei para Alice, ela perguntou se tinha acontecido alguma coisa. Eu fiquei em silêncio. Alô, alô. Não, não aconteceu nada. Foi só... O Romeu não te assusta às vezes? Alice ficou quieta, mas ouvi que ela chorou. Bem baixinho. Romeu veio correndo para soltar o balão. Eu tirei o barbante e amarrei no meu pulso. Romeu sorriu. Romeu sorri, avisei Alice. Ela chorou um pouco mais alto, então avisei que já estava levando ele.
O balão nos acompanhou até a casa de Alice. Fiquei com o balão na mão, assistindo ao Romeu correr pelo gramado da casa da sua mãe. Soltei. Romeu e Alice, balão voou. Romeu sorria. Parecia tão leve que flutuou até o chão, Alice deitou ao lado dele. Quis deitar ao lado de Alice, mas me ajoelhei ao lado de Romeu, ele me abraçou, e Alice me convidou para entrar. Por algum motivo respondi que não.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

e se alguém morresse

Vi, quando cheguei à porta, que Romeu havia deixado Mike sentado na poltrona vermelha. A televisão ligada para Mike assistir, enquanto Romeu se ocupava com alguma coisa no chão, impossível de enxergar. Mike sempre teve algo de muito triste, eu diria até demais para um bichinho de pelúcia. Romeu, vamos. Abri a porta, Romeu saiu correndo para chamar o elevador. Mike me lembrou Sabrina pela tristeza, a solidão da televisão ligada para preencher o vazio da sala, ou talvez fosse o contraste do veludo vermelho e branco da pelúcia, aquela pele que eu me recordava como muito branca.
No carro Romeu me perguntou porque eu estava vestido de preto. Você detesta preto. Sim, eu detesto, mas é uma questão de educação. Alguém morreu, e seria deselegante não usar roupas neutras. Tenho certeza que ele ficou se perguntando o porquê de ele estar usando uma blusa amarela com estampas coloridas. Acrescentei para acalmar Romeu: você não vai ao funeral. Ainda bem, seria deselegante, não é?
Deixei Romeu com a mãe dele, antes de sair do carro ele me perguntou por que eu não levei o Mike ao funeral, ele gosta dessas coisas tristes.
Não respondi. Às vezes não sei responder as perguntas de Romeu.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

olhei fundo, o mar me chamou

Ardor, nuca nua sob o sol.
vestido freme um delírio de ser flâmula
Fogo não, chama
o vento frio fluindo com a sombra,
minha réplica imaginada pelo sol:
um metro e meio suspenso na areia
sem peso, pena.
Sair do sol seria o convite marítimo,
se a sombra a maré alcançar
Alçar vôo em vento pleno,
planando o
tecido, um
plano de fuga: lançado ao ar o vestido.
Vestígio na areia de
um corpo engolido.

sábado, 10 de outubro de 2009

.

Hoje eu tirei o pó,
pó saiu, pó grudou, pó voou.
Pano úmido, cheiro de limpeza em produtos aquosos
em gel, ou pastosos, tipo xampu.
Tirei o pó com um pano na ponta do pé.
Pó ficou, tirei de novo,
pano com pó. Arasta o pó pra pá,
varredura completa do chão.
Pó no ar.