terça-feira, 21 de dezembro de 2010

sobre meninos que anunciam os lobos

As irritações sempre pela noite, ou a futilidade quase sempre ao meio-dia. Deixar ceder.
Insistência desde o começo. Percebe quem pode, nunca pude, será que vou? Os prazeres pequenos que não tinha, a atenção fiel de um cachorro, a atenção desleixada de um gatinho manhoso.
Delírio de febre. O ciúme aquece qualquer doença.
Obsessão dos que tem bem pouco. Muito pouco. Dos que se contentam com migalhas, e que não sabem cuidar das coisas, porque nunca foi preciso cuidar, só persuadir e ceder à insistência.
Pode anunciar o lobo que vem. É a sua maneira desleixada de brincar, como você retribui o modo desatento como sempre te trataram e que você trocava por pequenos prazeres. Promessas com base de pó. Não volúvel, nem volátil, mas disperso. Dislexo. Ou só tolo, desde o começo.
Pode anunciar. O lobu, o cansser, as doris. É seu delírio obsessivo. Já sei como posso. Não tão cedo como eu gostaria, eu não cedo. Diante dos outros.
Não tenho medo, só estou mais duro. Não danço mais tão leve quanto antes.
Não há febre do delírio da dança.
Abandonei, apunhalei, mandei-lhe uma sorte de palavras cruas. Sem prazer em fazê-lo. Sem regrets. E de olhos abertos. Essa metade meio suja se vai! Posso ver aqui de cima da torre. Vai com o vento. Mas tem uma sujeira que fica, e arde no fogo, pois não esqueço e não sou tão inocente. Mesmo acreditando que é possível.

Aos lobos anunciados, nem me preocupo. Tenho a minha torre, posso conferir.
Se por acaso os lobos chegarem. Não dou bola. Sou arrogante, sou tigre, não danço com tolos.

27

Alguém proclamou. O começo é sempre o mais difícil,
depois toma corpo, a coisa flui.
Entendi como um "fica fácil".
Engano.
No dia em que o número de páginas e qualidade foram altos,
acreditei nesse engano fluido da escrita.
Dormir, ligar o editor de texto e me deparar com tudo aquilo que falta...
Seria um novo começo?
Cadê o corpo?
Nada flui
Só estanca, a cada palavra.
Anuncio o fim
só por anunciar.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

dentro

cumpri os seus caprichos
teus desejos
fiz tudo que você pede.
não é uma questão de ajuda
agora você sangra,
mas dói em mim.

queria te despir para ver se eu conseguia te tirar de ti.
te quero fora, longe.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

miolo

A grama está alta, estava úmida da noite. Fui de pés descalços até o carro, minha mão estava sobre o volante sem muita vontade, as chaves jogadas no banco ao lado, Larry dormindo no banco de trás com as pernas atravessando janela. Voltei, trago travesseiros, havia deixado a chave do carro na cozinha, e comigo chave da moto. Apesar dos paralelepípedos e da areia abundante vinda da praia, fui com a moto, sem Larry, sem travesseiros, sem carro. Ao virar o quarteirão, desci da moto e a empurrei com os braços, o paralelepípedo um pouco úmido, gelado, mas a areia era só nojenta, mas era mais silêncio. Da frente da sua casa, barulho de água, alguém explodindo dentro da piscina. Uma voz, duas, a água, talvez estivessem os três.
Uhuuuuuuuu! Gritos femininos. Portão rangendo, a grama curta, pela janela sua mãe sorri. Ela sempre acorda antes do dia. Contorno pelo lado esquerdo, espio você saindo da piscina. Pingando toda a lage da piscina. A essa hora deve estar frio. Resolvo voltar, ligo a moto, e não vou. Em pouco tempo o ronco te atrai, te vejo pelo espelho. Desligo o barulho. Você pingando sai do meu campo, o portão de novo, os seus passos mais próximos. O meu braço, está gelado, enquanto seus dedos deslizam, seguro-os. Seus dedos resolvem molhar meus cabelos, me viro, você percebe que eu quase choro. Ao te ver são meus olhos que estão pingando.

domingo, 14 de novembro de 2010

negar o jogo

Toda a sorte das ofensas pronunciadas
pelas bocas desgostosas, todo um rol
indesejável de palavras e sentenças
a chuva de flechas de um arqueiro inábil,
atingido sem guarda-escudos com brasões
familiares, nomes distintos europeus não protegem.
distância eu ofereço, sem preço a te mostrar
ainda atingido, porém intacto, no bruises mein freund
poderia ser até em alemão com sua fonética áspera.
Mesmo então, assim, diante de ti e tua muralha que me depreciam,
me calo te olhando sem parar nunquinha.
e já faz tempo
pássaro lá do alto, silencia

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

troquei de idéia

Desabrochou como nova e genial, luminosa com a opacidade da lâmpada.
assim como a flor, os felinos são uma velha obsessão.
chega a hora de assumir (somente a mim mesmo)
o desfacelamento da visão amada da morte para
confeitar o vermelho dilacerante
rasgo em teu peito

chão é limpo, e me entretenho há tempos em
encardidos detalhes, esse fio que percorre a casa
a pequena casa de verão, ocupada agora
por insetos de vida primaveril.
prima verano, faz quente e frio, ausência de luz bonita no outono. Aprendi a reclamar de qualquer coisa que aconteça em cada estação. Bichos, calor excessivo, todas as estações no mesmo dia, frio com vento.
alguém desata a falar, por vinte minutos
sozinho
na sala,
no frio de um canto o fio se enrola,
bracura depois de horas. na base do enforcamento
a morte seca
mariposas pela casa.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Resumo

chicletes efervecentes, o sol queimando o rosto
o jeans assando as coxas.
o tempo mal calculado, deixar
recados foi um plano falhado
no tribunal um certo desconforto, sequência
inúmeros corredores, descubro uma pechincha
velhaca, só noto após regressado.
o queijo tem mofo

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

lágrimas secas

chorei sozinho.
desejo de estar diante de ti.
me acalmei, terminei o chá
não fui andar, dormência nos pés do arauto
sem fala, nem rumo
sem notícias da rainha.
cai soldado, batatas da perna na terra, seca
sol os olhos

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sem Fá nem Ré

Não resisti à luz que se punha. Sentei, impaciente, cansado, miserável. Quanta infantilidade existiu em apenas dois dias, voltei aos tempos púrpureos de adolescência. Não fiz nada e não parei o dia inteiro, você me martelando a cabeça, ou poderia ser eu mesmo, cortando meu peito, sem sair nada de dentro. Sem sair nada de mim.
um SOL lindo La fora, e eu MI matando aqui. que DÓ o ver com pena de SI.
Não corro o risco pelas paredes da Casa, mantenho em branco qualquer chance.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Pensei que era a volta

Descendo a rua da casa do pai, tantas desavenças se encontram no caminho.
Os amigos de infância são aqueles inimigos velados por inveja e autopromoção diante de coisas que não te importam tanto assim.
Tesouros são poucos descendo a rua, vi um quase.
O estupor é tanto, você atravessando a rua, a incontavéis quilometros de distância.
Não era você, mas eu te vi, por lindos instantes.

domingo, 10 de outubro de 2010

tarde longa

A janela ficou aberta até bem depois da chuva começar. Já molhava todo o chão, a chuva, e nem me interessei em fechar a janela. O vento gelado entrava com a água através da abertura da janela, não fechei. Aos poucos vi o chão de madeira se encher de pingos, enquanto as cortinas sacodiam, ainda que presas, por causa do vento, a janela aberta e a vontade de nunca a fechar. A longa chuva forte entrava na casa, e você lá fora, desprotegido, num lugar de janelas fechadas.

Não vi você sair, o guarda-chuva não foi, vejo chegar molhado. Você deixando a roupa molhada na varanda e pedindo pela toalha, vejo pela janela aberta, a janela que você deixou aberta e continuo a deixar, manchas na madeira deixadas pela água que te molha. me deixas. me deixa a casa vazia, o gato miando e a geladeira abundante. Não faltam delícias frias, ou quentes, mas eu te espero, ou as deixo preparadas, quando você entrar nu pela janela.

A tarde inteira esgotando a paciencia com pílulas medicinais, a cabeça pesada, e o desfavor de ter deixado a janela aberta. Fechei, embora o vento ainda invadisse com assovios violentos, e as gotas disparassem contra o vidro a fúria da minha febre sobre o meu corpo. Meu corpo quente esperando a calma do seu. Apesar da fome, não.

Almoço tarde, fumo sem parar, vou até a janela, molho meu braço na chuva, seco no banheiro, vou até a varanda e deixo a porta aberta. Entra uma brisa. Desliguei o relógio, o tempo não parecia passar mesmo quando ele tava ligado. Peguei um livro seu para ler, mas há um tédio mortal nas palavras, troquei a caixinha do gato, arrumei coisas para limpar. Tirei a roupa e fui tomar banho na chuva. Senti frio em pleno verão, sem você para me aquecer, a tarde inteira ficou nublada de sóis. Só, fiquei nublada de ti, teu calor campestre, teu perfume cítrico. Você diz, mas eu não acredito, uma tarde inteira, sem ao menos um telefonema, sem música, com a entediante morte das palavras faladas, minha tarde sem fonema, apenas a chuva escorrendo nas minhas pernas. Está frio. Molho toda a casa, seco no banheiro o meu corpo e deito no colchão velho revestido de lençóis recentes.

O telefone finalmente toca. Não atendo. Alguém na outra linha fala sobre comida, não tenho fome. O gato dorme preguiçoso, se eu dormisse, ao menos, poderia ficar a noite inteira acordada do seu lado, nem que você dormisse entrelaçando minhas pernas. Estou com sede. Levo o máximo de tempo para fazer um suco. Frutas cítricas do seu perfume, você diz, mas eu não acredito, bebo o suco por uma tarde inteira, o telefone toca sem parar, atendo e não é ninguém. Por toda casa há vestígios de fumo, por toda casa penso em fumar, só um pouquinho, ou só mais um pouquinho sem. Aos pouquinhos venço qualquer vontade. Bebo um suco, ouvindo ninguém falar ao telefone que toca.

A chuva começa forte, desde o início pingos largos. Torrente lá fora, se ao menos pudéssemos tomar um banho. Acho um livro perdido, olho no relógio para saber as horas. Não muda, deve estar sem energia. O tempo inteiro se arrastando, sem força, cansado das palavras entediantes. Coloco pilhas novas, o gato quer leite, Apolo bebe o pote inteiro. Você me liga, eu não acredito, diz que vai me dar um perfume cítrico. Roupas sujas ficam limpas. Durmo, perdida num livro.

Não havia nada a fazer. Pensei em ir à chuva. Desisti. Sentar por horas numa posição prejudicial à coluna. O celular tocava, e nunca era você. a chuva aumenta, e eu sinto uma necessidade profunda de colar no chão, desço da cama, tchau colchão velho, madeira gelada e húmida, frio esperando o calor do teu corpo, coberta, minha coberta, me acoberta desse frio venenoso que a chuva me chama. saio da cama, deito cobrindo o chão, a chuva mais forte acoberta os sons lá de fora. Não vou ouvir se você gritar, preocupo. Na cozinha que é ainda mais fria, o calor me atrai o forno, onde suas delícias aguardam quentinhas, e eu me esquento. Sozinha, e seminua na sala, com uma bandeija preparada. Peguei no sono quando. Seu perfume invadiu o meu sono, acreditei nesse sonho de você aqui. A chuva parou, e eu escuto algo lá fora. A saudade saindo à francesa.

domingo, 26 de setembro de 2010

esotéricos

Jogos de estrelas espalhadas no chão
cristal, é cristral, gritavam
cerejas numa caixa, alimentavam a noite

domingo, 29 de agosto de 2010

Foi com uma 7 belo? Foi.

A janela do meu quarto estava aberta, a pilha de roupa se acumulava em cima da minha cama, os jornais até estavam organizados embaixo da escrivaninha, livros abertos e um pote de tinta. Lembra? Você pegou direto o pote de tinta vermelha, atóxica, falou alto, e foi até a janela fumar. Fiquei olhando, passava em você aquela fumaça fedorenta que aos poucos aprendia a gostar, eu sei: eu detesto e até brigo contigo pelo modo nada sutil que ela se apega nas minhas roupas, mas hoje sinto falta. Uma a uma dobrei as camisetas amassadas e as coloquei, desajeitadamente, na primeira gaveta. Agora era você que me olhava, e olhava as cuecas num bolo na cama. Antes que pudesse pegá-las e as colocar na segunda gaveta, você escolheu uma, estudou-a, e observou meu corpo, tentando imaginar uma coisa dentro da outra. Depois que eu guardei as outras, jogou para mim e me olhava num tom jocoso, embora designativo. Tirei a roupa, enquanto fumava outro cigarro. Outro cigarro... fiz devagar, só para ver se você aguentaria todo aquele cigarro sem olhar para dentro, escutando minhas roupas murmurando sobre sua saída do meu corpo.
Depois de me vestir conforme o combinado, passou tinta no meu corpo, cobriu meu peito, desenho nas costas, uma palavra odiosa no braço, mas que hoje falo com respeito. Abraço, beijo, manchas vermelhas na sua roupa, no meu lençol, no meu rosto, nos seus cabelos. Lembra? Quanto xampú usamos para escorrer todo vermelho pelo ralo, e como minha pele ficou seca? Passou hidratante ao me falar a morte da sua irmã. Sufocar com uma bala é um trauma e tanto. E foi por isso que você se acostumou a andar com um tubo anão de pasta de dente na bolso. Trauma infanticida ao pé do meu ouvido. Ficamos deitados, escutamos músicas que você não conhecia. Esperou eu dormir para fumar na minha cama, nem me falou que bateu as cinzas onde guardo minha moedas, lembra?

terça-feira, 25 de maio de 2010

bobagem

escrevi para ele, não sei, parecia que se fosse só para ele era mais bonito.
usei um xampú feito de alguma coisa que sai das macadâmias.
nunca as comi, eu acho. Assim como o pistache, só lembro que há o sorvete, e ele é verde.
não lembro de sorvete de macadâmias, nem de avelãs. Nozes sim, e tenho a impressão flutuante das castanhas.
será? sovertes de castanhas. Do Pará? De caju? sorvete de caju com castanhas de caju, sorvete do Pará, de Belém, sorvete de caju do pará, de pistache de belém, de belém do pará. Sorvete do norte.

Castanhos, o xampú de macadâmias é para cabelos claros. Castanhos não são o suficiente claros.
não sou claro. pistache é verde e soverte de castanhos podem ter várias cores.
e os espero todos sem cabelos.

terça-feira, 23 de março de 2010

clima intenso

O céu aberto, ou carregado de prontas torrentes
a desabar, bárbaras
e rápidamente água excludente
me torna um desabrigado.
não sei onde moro com tantos cigarros.
mar de fumaça dentro dum carro, vidro
vive embaçado.
esperei seco você sair do dilúvio,
andava como se fosse eflúvio,
doce paço, teu rosto baço.
entrou molhado
me dei-
xou flui-
do

quarta-feira, 17 de março de 2010

briga e paixão

Minha mão ardeu. A palma da minha mão ainda ardia mesmo depois do terceiro cigarro seguido.
Houve, então, a loira e suas satisfações com o dedo na minha cara, as quais não atendia, e me atrevi de bêbado, ainda por cima, a tentar morder aquele dedo cheio de desdém e ódio balançando perante minha boca. Para minha maior indigestão eu consegui, e sangrou. Primeiro o tapa, agora o sangue louro entre os dentes. A infelicidade maior foi experimentar o banho de whisky cowboy, vindo da amiga da amiga. Aquele cheiro de álcool barato impregnando a minha roupa. Já não bastava o cigarro e aquelas gotinhas de sangue?
Me retiravam do bar por quebrar aquele dedinho com pelinhos loiros, e você ali, parado como se me esperasse. O som da ambulância ia se distanciando, e em mim fervia o desejo crescente de esmagar sua boca. Tão. Perfeitamente. Delineada.

sábado, 13 de março de 2010

noite de sábado

Após ser indagado por diversos convites
resolvi roscar entre travesseiros
assintindo a Rivette, enquanto
lavava os lençóis que
aguardam até amanhã de manhã
limpos sua chegada.

sexta-feira, 5 de março de 2010

tempo louco

de tão intimos que estávamos,
céu e eu, jogamos antigas brincadeiras
de uma época inocente, humor
de um seguido
o outro, céu
sente como eu sinto,
quem é mestre segue
ou eu sigo, o céu
ao seu lado somos radiante,
mas à noite, como ele,
desaguo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

no café perto do almoço

Na mesa ao lado tinha um casal de velhinhos comendo cheeseburgueres. Cheeseburgueres? Sim, é estranho, mas eu presto atenção em detalhes. A velha senhora tinha aparência de algo que é incomum às pessoas de sua idade. Ela fazia gestos pequenos, calculados e precisos, atenta para não errar a etiqueta. O velho senhor parecia ter alzheimer, pois repetiu diversas vezes com muita convicção e bom humor que já havia comido x-burguer. Talvez ele havia comido x-burgueres. Não pela maneira que a velha senhora respondia para ele.
Na minha frente um furacão, turbulência desajeitada dos braços em frenesi de Morgana falando junto com a boca. O tempo de trégua era o pedaço de cheeseburguer abocanhado e torturado com todo o direito pela boca incessante.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Fogo, sabe?

Apesar de sempre ter achado que ela era chatinha e bobinha, eu admirava Morgana. Sempre tão cheia de si, sempre muito alta, sempre sorrindo escandalosamente. Fazia tempo que não a via, tempo que eu não ouvia sua voz. Ela falou e falou e falou; falou tanto que eu perdi Romeu de vista. O céu escurecia tão apressado, e na mesma velocidade fui procurar meu filho, deixei Morgana falando sozinha, e ela demorou para se dar conta disso. Ela fala para si mesma, pensei me aproximando do mar, tinha visto Romeu à beira da praia, mas nem sinal de Romeu. Olhei de volta para aglomeração de pessoas, das quais muitas há anos eu não via, talvez mais de dez anos, não lembro. Romeu era uma das poucas crianças, não deveria ser difícil de o ver no meio de todo mundo. Morgana voltava para perto de mim, mexia no seu drink, sempre lenta, sempre abundante. Ele está lá com a Sabrina, por que me deixou falando sozinha seu ingrato?, poderia ter me perguntado, eu o vi perto das pessoas fazendo fogueira de mãos dadas com ela, tão bonitinhos os dois, o Romeu tem a sua cara, sabia?, igualzinho, mas os olhos são de Alice, e por sinal, por que ela não veio?, tenho absoluta certeza que foi convidada. Morgana me deixava tonto, os cabelos prolixos, o rosto grande demais, a boca e o olhar sempre perguntando. Poderia dizer: a suporto falar nesses encontros de velhos conhecidos pois foi ela quem me apresentou Alice. Na verdade eu secretamente gosto do modo enfadonho que ela leva a conversa, gosto com um pouquinho de inveja também. Sua conversa me seduz à medida que me aborrece.

Fui ouvindo, ouvindo, ouvindo até chegarmos perto da fogueira, pois Morgana foi interrompida por um homem, não vi quem era. Sentei ao lado de Romeu perto da fogueira, ele continuou a contar da última vez que esteve na praia com Mike, e como Mike detestava o mar. Sabrina tocou os cabelos de Romeu, um carinho recorrente que ela fazia em quem gostava muito, e que inúmeras vezes fez mim. É seu gesto especial. A última vez que eu a vi foi durante o funeral de Mateus, ela passou a tarde inconsolável afagando os cabelos do morto. Romeu continuava sua história sobre as torturas higiênicas realizadas pela sua mãe para deixar Mike limpo e branco depois de um dia de mar.

Sabrina me olha. Começo a lembrar de um frio, como se fosse de ontem. Um frio, que subia as pernas, ainda quente na minha memória. Um frio vermelho espalhado pela cerâmica do piso, pelas paredes brancas e geladas. O frio daquele inverno, o sol sempre fraco naquela casa perto da praia, o amanhecer lento; não havia pressa como as noites de verão. Eu e Sabrina com as pernas entrelaçadas e vestidos com casacos de veludo, ela de vermelho e eu de verde - às vezes eu usava um azul ou um preto, ela era sempre o vermelho. Éramos como um estereótipo publicitário perfeito de artistas, definimos brincando. Passamos aquele inverno quase sempre nus, às vezes usando os casacos, ou meias compridas, ou cachecóis grandes, ou luvas, usando o corpo um do outro para reter calor, e havia chá de muitas ervas colhidas do jardim. Sabrina e eu estávamos apaixonados, vivendo um transe feérico, embebidos por espécie de lucidez artística. As tintas e os desenhos, era para isso que vivíamos, quadros, esboços e muitas polaroids que hoje eu teria vergonha de rever. Não consigo de modo algum relembrar o que eu pensava durante as horas nas quais Sabrina me olhava. Ela só me olhava, tentando desvelar o desenho. Longas tardes servindo de modelo para Sabrina.

Romeu colocou mike no meu colo e se juntou a Morgana. Ela sempre foi uma grande amiga de Alice e se tornou madrinha de Romeu. Sabrina se aproximou de mim. Ela falou do clima e como a fogueira esquentava. O comentário dela me fez lembrar novamente aquele inverno. Ela falou do funeral de Mateus, e fiz o gesto que era dela. Afaguei os seus cabelos. Vamos molhar os pés? Olhei para Morgana para conferir Romeu antes de caminhar até a água. Senti sua falta durante todos esses anos. Havia dias que eu te queria ao lado, talvez por um motivo romancisado. Você sempre pareceu mais distante do que Mateus parece agora. Ela começou a chorar. Abracei, beijei sua testa. Nossos pés aos poucos afundavam na areia com o ir e vir das ondas. Estamos afundando. A gente afundou faz quinze anos, ela respondeu.

É verdade que por boa parte daquele inverno fazer tudo por Sabrina foi delirante. Só desejava ajudar no surto criativo, ser servil a Sabrina. Aos poucos comencei a sentir que ela me arrastava como um fardo. No final daquele inverno, através de uma epifania matinal num dia um pouco mais quente, descobri que o fardo era meu, e que fazer de tudo por Sabrina o deixava mais pesado, ou era o que eu pensei na época. Foi também a manhã em que fizemos sexo pela primeira vez. Naquela hora eu tinha escolhido o sexo como forma de perder toda a submissão adquirida durante o inverno. Além disso, Oliver e Mateus chegaram no início daquela tarde. Sabrina comandava seus três modelos, os novos com os casacos azul e preto. Posando para ela eu botei na minha cabeça, de uma forma bem dura, que iria me tornar um rebelde. Encerrar esse inverno da arte que Sabrina havia imposto. Senti que fui manipulado pelos seus desejos egoístas e realizaria, por fim, uma pequena vingança. O desenho daquela tarde acabou rápido, Sabrina disse que havia feito apenas um esboço e terminaria no quarto, não nos deixou o ver e se trancou. Oliver foi colher ervas, enquanto Mateus colocava água para esquentar, e eu me sentindo um homem traído com os planos arruinados pela súbita mudança de Sabrina, fiquei parado de pé. Oliver entrou em casa, entregou as ervas a Mateus, puxou-me pelo braço e apontou para minhas roupas. Apesar do dia estar mais quente que os outros, ainda estava frio. Coloquei a roupa mesmo já acostumado com o clima. Tomamos o chá, escureceu lentamente, ouvi Oliver falar sobre como estava sendo o seu inverno, falou sobre sua viagem com Morgana, e porque Mateus e ele resolveram aparecer, em algum ponto da conversa tive a impressão que os dois estavam juntos. Sabrina irrompeu do quarto, gritou o meu nome, e me abraçou, ela estava tremendo. Não consigo terminar, falou. Senti remorso e chorei. Desvencilhei-me dos braços dela e fui em direção ao jardim, então saí da casa e fui até a praia, pois ouvi que alguém me seguia. Para minha surpresa era Mateus que me acompanhou até a escuridão da praia. Nós nunca gostamos um do outro, mas ele foi lá fora pedir para eu voltar. Sentei no sofá ao lado de Oliver, Sabrina estava num banco do outro lado olhando as polaroids. Oliver me puxou e eu deitei no seu colo, ainda chorava um pouquinho. Sabrina levantou, afagou meus cabelos como sempre faz, beijou na minha testa e disse obrigada. Dormi nos braços de Oliver. Foi o último quadro que Sabrina pintou naquele inverno, ouvi dizer que alguém pagou bem caro por ele, o único quadro que ela pintou à noite. Na manhã seguinte acordei sozinho na cama, havia um bilhete na mesa, "fomos à praia". Juntei minhas roupas e fui embora. Estava feliz pelo quadro, porém também estava imensamente triste. Peguei o bilhete e escrevi um novo recado que me casou um tanto de arrependimento:
Fomos...
Fui