sábado, 23 de janeiro de 2010

Fogo, sabe?

Apesar de sempre ter achado que ela era chatinha e bobinha, eu admirava Morgana. Sempre tão cheia de si, sempre muito alta, sempre sorrindo escandalosamente. Fazia tempo que não a via, tempo que eu não ouvia sua voz. Ela falou e falou e falou; falou tanto que eu perdi Romeu de vista. O céu escurecia tão apressado, e na mesma velocidade fui procurar meu filho, deixei Morgana falando sozinha, e ela demorou para se dar conta disso. Ela fala para si mesma, pensei me aproximando do mar, tinha visto Romeu à beira da praia, mas nem sinal de Romeu. Olhei de volta para aglomeração de pessoas, das quais muitas há anos eu não via, talvez mais de dez anos, não lembro. Romeu era uma das poucas crianças, não deveria ser difícil de o ver no meio de todo mundo. Morgana voltava para perto de mim, mexia no seu drink, sempre lenta, sempre abundante. Ele está lá com a Sabrina, por que me deixou falando sozinha seu ingrato?, poderia ter me perguntado, eu o vi perto das pessoas fazendo fogueira de mãos dadas com ela, tão bonitinhos os dois, o Romeu tem a sua cara, sabia?, igualzinho, mas os olhos são de Alice, e por sinal, por que ela não veio?, tenho absoluta certeza que foi convidada. Morgana me deixava tonto, os cabelos prolixos, o rosto grande demais, a boca e o olhar sempre perguntando. Poderia dizer: a suporto falar nesses encontros de velhos conhecidos pois foi ela quem me apresentou Alice. Na verdade eu secretamente gosto do modo enfadonho que ela leva a conversa, gosto com um pouquinho de inveja também. Sua conversa me seduz à medida que me aborrece.

Fui ouvindo, ouvindo, ouvindo até chegarmos perto da fogueira, pois Morgana foi interrompida por um homem, não vi quem era. Sentei ao lado de Romeu perto da fogueira, ele continuou a contar da última vez que esteve na praia com Mike, e como Mike detestava o mar. Sabrina tocou os cabelos de Romeu, um carinho recorrente que ela fazia em quem gostava muito, e que inúmeras vezes fez mim. É seu gesto especial. A última vez que eu a vi foi durante o funeral de Mateus, ela passou a tarde inconsolável afagando os cabelos do morto. Romeu continuava sua história sobre as torturas higiênicas realizadas pela sua mãe para deixar Mike limpo e branco depois de um dia de mar.

Sabrina me olha. Começo a lembrar de um frio, como se fosse de ontem. Um frio, que subia as pernas, ainda quente na minha memória. Um frio vermelho espalhado pela cerâmica do piso, pelas paredes brancas e geladas. O frio daquele inverno, o sol sempre fraco naquela casa perto da praia, o amanhecer lento; não havia pressa como as noites de verão. Eu e Sabrina com as pernas entrelaçadas e vestidos com casacos de veludo, ela de vermelho e eu de verde - às vezes eu usava um azul ou um preto, ela era sempre o vermelho. Éramos como um estereótipo publicitário perfeito de artistas, definimos brincando. Passamos aquele inverno quase sempre nus, às vezes usando os casacos, ou meias compridas, ou cachecóis grandes, ou luvas, usando o corpo um do outro para reter calor, e havia chá de muitas ervas colhidas do jardim. Sabrina e eu estávamos apaixonados, vivendo um transe feérico, embebidos por espécie de lucidez artística. As tintas e os desenhos, era para isso que vivíamos, quadros, esboços e muitas polaroids que hoje eu teria vergonha de rever. Não consigo de modo algum relembrar o que eu pensava durante as horas nas quais Sabrina me olhava. Ela só me olhava, tentando desvelar o desenho. Longas tardes servindo de modelo para Sabrina.

Romeu colocou mike no meu colo e se juntou a Morgana. Ela sempre foi uma grande amiga de Alice e se tornou madrinha de Romeu. Sabrina se aproximou de mim. Ela falou do clima e como a fogueira esquentava. O comentário dela me fez lembrar novamente aquele inverno. Ela falou do funeral de Mateus, e fiz o gesto que era dela. Afaguei os seus cabelos. Vamos molhar os pés? Olhei para Morgana para conferir Romeu antes de caminhar até a água. Senti sua falta durante todos esses anos. Havia dias que eu te queria ao lado, talvez por um motivo romancisado. Você sempre pareceu mais distante do que Mateus parece agora. Ela começou a chorar. Abracei, beijei sua testa. Nossos pés aos poucos afundavam na areia com o ir e vir das ondas. Estamos afundando. A gente afundou faz quinze anos, ela respondeu.

É verdade que por boa parte daquele inverno fazer tudo por Sabrina foi delirante. Só desejava ajudar no surto criativo, ser servil a Sabrina. Aos poucos comencei a sentir que ela me arrastava como um fardo. No final daquele inverno, através de uma epifania matinal num dia um pouco mais quente, descobri que o fardo era meu, e que fazer de tudo por Sabrina o deixava mais pesado, ou era o que eu pensei na época. Foi também a manhã em que fizemos sexo pela primeira vez. Naquela hora eu tinha escolhido o sexo como forma de perder toda a submissão adquirida durante o inverno. Além disso, Oliver e Mateus chegaram no início daquela tarde. Sabrina comandava seus três modelos, os novos com os casacos azul e preto. Posando para ela eu botei na minha cabeça, de uma forma bem dura, que iria me tornar um rebelde. Encerrar esse inverno da arte que Sabrina havia imposto. Senti que fui manipulado pelos seus desejos egoístas e realizaria, por fim, uma pequena vingança. O desenho daquela tarde acabou rápido, Sabrina disse que havia feito apenas um esboço e terminaria no quarto, não nos deixou o ver e se trancou. Oliver foi colher ervas, enquanto Mateus colocava água para esquentar, e eu me sentindo um homem traído com os planos arruinados pela súbita mudança de Sabrina, fiquei parado de pé. Oliver entrou em casa, entregou as ervas a Mateus, puxou-me pelo braço e apontou para minhas roupas. Apesar do dia estar mais quente que os outros, ainda estava frio. Coloquei a roupa mesmo já acostumado com o clima. Tomamos o chá, escureceu lentamente, ouvi Oliver falar sobre como estava sendo o seu inverno, falou sobre sua viagem com Morgana, e porque Mateus e ele resolveram aparecer, em algum ponto da conversa tive a impressão que os dois estavam juntos. Sabrina irrompeu do quarto, gritou o meu nome, e me abraçou, ela estava tremendo. Não consigo terminar, falou. Senti remorso e chorei. Desvencilhei-me dos braços dela e fui em direção ao jardim, então saí da casa e fui até a praia, pois ouvi que alguém me seguia. Para minha surpresa era Mateus que me acompanhou até a escuridão da praia. Nós nunca gostamos um do outro, mas ele foi lá fora pedir para eu voltar. Sentei no sofá ao lado de Oliver, Sabrina estava num banco do outro lado olhando as polaroids. Oliver me puxou e eu deitei no seu colo, ainda chorava um pouquinho. Sabrina levantou, afagou meus cabelos como sempre faz, beijou na minha testa e disse obrigada. Dormi nos braços de Oliver. Foi o último quadro que Sabrina pintou naquele inverno, ouvi dizer que alguém pagou bem caro por ele, o único quadro que ela pintou à noite. Na manhã seguinte acordei sozinho na cama, havia um bilhete na mesa, "fomos à praia". Juntei minhas roupas e fui embora. Estava feliz pelo quadro, porém também estava imensamente triste. Peguei o bilhete e escrevi um novo recado que me casou um tanto de arrependimento:
Fomos...
Fui