domingo, 29 de agosto de 2010

Foi com uma 7 belo? Foi.

A janela do meu quarto estava aberta, a pilha de roupa se acumulava em cima da minha cama, os jornais até estavam organizados embaixo da escrivaninha, livros abertos e um pote de tinta. Lembra? Você pegou direto o pote de tinta vermelha, atóxica, falou alto, e foi até a janela fumar. Fiquei olhando, passava em você aquela fumaça fedorenta que aos poucos aprendia a gostar, eu sei: eu detesto e até brigo contigo pelo modo nada sutil que ela se apega nas minhas roupas, mas hoje sinto falta. Uma a uma dobrei as camisetas amassadas e as coloquei, desajeitadamente, na primeira gaveta. Agora era você que me olhava, e olhava as cuecas num bolo na cama. Antes que pudesse pegá-las e as colocar na segunda gaveta, você escolheu uma, estudou-a, e observou meu corpo, tentando imaginar uma coisa dentro da outra. Depois que eu guardei as outras, jogou para mim e me olhava num tom jocoso, embora designativo. Tirei a roupa, enquanto fumava outro cigarro. Outro cigarro... fiz devagar, só para ver se você aguentaria todo aquele cigarro sem olhar para dentro, escutando minhas roupas murmurando sobre sua saída do meu corpo.
Depois de me vestir conforme o combinado, passou tinta no meu corpo, cobriu meu peito, desenho nas costas, uma palavra odiosa no braço, mas que hoje falo com respeito. Abraço, beijo, manchas vermelhas na sua roupa, no meu lençol, no meu rosto, nos seus cabelos. Lembra? Quanto xampú usamos para escorrer todo vermelho pelo ralo, e como minha pele ficou seca? Passou hidratante ao me falar a morte da sua irmã. Sufocar com uma bala é um trauma e tanto. E foi por isso que você se acostumou a andar com um tubo anão de pasta de dente na bolso. Trauma infanticida ao pé do meu ouvido. Ficamos deitados, escutamos músicas que você não conhecia. Esperou eu dormir para fumar na minha cama, nem me falou que bateu as cinzas onde guardo minha moedas, lembra?