terça-feira, 26 de outubro de 2010

Pensei que era a volta

Descendo a rua da casa do pai, tantas desavenças se encontram no caminho.
Os amigos de infância são aqueles inimigos velados por inveja e autopromoção diante de coisas que não te importam tanto assim.
Tesouros são poucos descendo a rua, vi um quase.
O estupor é tanto, você atravessando a rua, a incontavéis quilometros de distância.
Não era você, mas eu te vi, por lindos instantes.

domingo, 10 de outubro de 2010

tarde longa

A janela ficou aberta até bem depois da chuva começar. Já molhava todo o chão, a chuva, e nem me interessei em fechar a janela. O vento gelado entrava com a água através da abertura da janela, não fechei. Aos poucos vi o chão de madeira se encher de pingos, enquanto as cortinas sacodiam, ainda que presas, por causa do vento, a janela aberta e a vontade de nunca a fechar. A longa chuva forte entrava na casa, e você lá fora, desprotegido, num lugar de janelas fechadas.

Não vi você sair, o guarda-chuva não foi, vejo chegar molhado. Você deixando a roupa molhada na varanda e pedindo pela toalha, vejo pela janela aberta, a janela que você deixou aberta e continuo a deixar, manchas na madeira deixadas pela água que te molha. me deixas. me deixa a casa vazia, o gato miando e a geladeira abundante. Não faltam delícias frias, ou quentes, mas eu te espero, ou as deixo preparadas, quando você entrar nu pela janela.

A tarde inteira esgotando a paciencia com pílulas medicinais, a cabeça pesada, e o desfavor de ter deixado a janela aberta. Fechei, embora o vento ainda invadisse com assovios violentos, e as gotas disparassem contra o vidro a fúria da minha febre sobre o meu corpo. Meu corpo quente esperando a calma do seu. Apesar da fome, não.

Almoço tarde, fumo sem parar, vou até a janela, molho meu braço na chuva, seco no banheiro, vou até a varanda e deixo a porta aberta. Entra uma brisa. Desliguei o relógio, o tempo não parecia passar mesmo quando ele tava ligado. Peguei um livro seu para ler, mas há um tédio mortal nas palavras, troquei a caixinha do gato, arrumei coisas para limpar. Tirei a roupa e fui tomar banho na chuva. Senti frio em pleno verão, sem você para me aquecer, a tarde inteira ficou nublada de sóis. Só, fiquei nublada de ti, teu calor campestre, teu perfume cítrico. Você diz, mas eu não acredito, uma tarde inteira, sem ao menos um telefonema, sem música, com a entediante morte das palavras faladas, minha tarde sem fonema, apenas a chuva escorrendo nas minhas pernas. Está frio. Molho toda a casa, seco no banheiro o meu corpo e deito no colchão velho revestido de lençóis recentes.

O telefone finalmente toca. Não atendo. Alguém na outra linha fala sobre comida, não tenho fome. O gato dorme preguiçoso, se eu dormisse, ao menos, poderia ficar a noite inteira acordada do seu lado, nem que você dormisse entrelaçando minhas pernas. Estou com sede. Levo o máximo de tempo para fazer um suco. Frutas cítricas do seu perfume, você diz, mas eu não acredito, bebo o suco por uma tarde inteira, o telefone toca sem parar, atendo e não é ninguém. Por toda casa há vestígios de fumo, por toda casa penso em fumar, só um pouquinho, ou só mais um pouquinho sem. Aos pouquinhos venço qualquer vontade. Bebo um suco, ouvindo ninguém falar ao telefone que toca.

A chuva começa forte, desde o início pingos largos. Torrente lá fora, se ao menos pudéssemos tomar um banho. Acho um livro perdido, olho no relógio para saber as horas. Não muda, deve estar sem energia. O tempo inteiro se arrastando, sem força, cansado das palavras entediantes. Coloco pilhas novas, o gato quer leite, Apolo bebe o pote inteiro. Você me liga, eu não acredito, diz que vai me dar um perfume cítrico. Roupas sujas ficam limpas. Durmo, perdida num livro.

Não havia nada a fazer. Pensei em ir à chuva. Desisti. Sentar por horas numa posição prejudicial à coluna. O celular tocava, e nunca era você. a chuva aumenta, e eu sinto uma necessidade profunda de colar no chão, desço da cama, tchau colchão velho, madeira gelada e húmida, frio esperando o calor do teu corpo, coberta, minha coberta, me acoberta desse frio venenoso que a chuva me chama. saio da cama, deito cobrindo o chão, a chuva mais forte acoberta os sons lá de fora. Não vou ouvir se você gritar, preocupo. Na cozinha que é ainda mais fria, o calor me atrai o forno, onde suas delícias aguardam quentinhas, e eu me esquento. Sozinha, e seminua na sala, com uma bandeija preparada. Peguei no sono quando. Seu perfume invadiu o meu sono, acreditei nesse sonho de você aqui. A chuva parou, e eu escuto algo lá fora. A saudade saindo à francesa.