domingo, 13 de novembro de 2011

ying-yang

Cai fora que a porta tá aberta; eu não te quero mais por aqui, tua benção, tua fortuna, não há mais o direito da partilha do pão, da alma; dê adeus ao ágape. Clamor, estrondos, e curvo as paredes se for necessário. Sei receitas de venenos, uns dois ou três, que causam a morte ou, ainda pior, a paralisia. Tuas pernas remotas paradas frente a porta que não te deixa entrar. Vais ficar aí, vendo todos os que entram. Então todo esse fogo que me consome será absorvido, tornar-te-ás meu talismã sugador, invejoso, ciumento, símbolo de uma paixão vadia, e terás fogos nas mãos, contudo o frio vai pertencer ao teu corpo, morto, livre de qualquer delírio febril, compadre.
Caia dentro que abriram a janela. Não quero mais ver você perder os cabelos ao vento com as unhas roxas de frio. Venha que aqui tem lã, e fazemos grossos tapetes, deitamos no chão para, confortáveis, desafiar a noite até raiar o dia, e para fome fazemos banquetes. Suas frutas preferidas temos para lhe dar. Às vezes trazem flores para o dia ser mais alegre. Há rituais para lua, e nos banhamos quando chove. Pode pular, que eu lhe dou a mão, compadre.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"O que eu defino pela sua teoria?" "A realidade, talvez."

Que júbilo, dissimulado em sonhos, só posso pensar em pesadelo. Sonho essa coisa de leveza e alívio, saciedade sem preenchimento, pois o peito é vazio. Mesmo no colo, com os braços envoltos, pois teu corpo colado é maestro em orquestrar a sensação de segurança. Mas, como as crianças que sabem de segredos, eu sei que a seguridade é só para deixar passar algo no vazio dos corpos, ou pelos menos no meu. É oco mas não é duro; o sonho, o pesadelo são sempre macios, confortáveis, envolventes e é justamente aí que residem suas forças, e que eles se mostram assustadores. 
Quando percorre esse universo oco do peito, a mim mutila, destroça, pulveriza qualquer resto de carne. A doce passagem que me deixa estarrecido no chão, pois você, novo rei, perturba a ordem do sono. Não sei mais a diferença, ainda que eu consiga dormir em paz. 
Que júbilo, que dor.

domingo, 6 de novembro de 2011

comprar margarina

pairo, estou num pulo
de bailarina, passeio pluma, firme, finca
treme terra, perna e algodão
flaneia pela pele suja, besta, 
gasta, a felicidade rasga
as finadas cordas sem acordes
tecidos rubros encharcados fiapo
por fiapo
fina, venhas
tens me sido tão avessa



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

#5


Não vejo as estrelas da noite. Para falar a verdade nem me lembro, até da lua esqueço, nova que se esconde. Logo cresce, brilha, e esmorece até que a gente esquece dela de novo, esquece que a maré se move por ela, mas a gente não se move da maré, sempre deixo ela molhar os pés. A maré do dia de hoje, de praia e sol. Peguei em casa mesmo, sem roupas, o sol que entra pela janela já bem cedo, antes das sete. Ele me desperta, e hoje estava bem quente, queimando o chão, as roupas, a minha pele. Esse calor espanta algo que nem quero por perto, mas eu sei que me ronda, e a ti também, como o giro tumultuoso de uma ciranda que rompe e espirala, seu rosto só de relance diante dos outros, que comem as mãos e fundem os punhos. Mas o sol me protege desses sonhos loucos, suspende o tormento. Calmaria e bonança.

é nesse abraço que o terror colossal me abandona. É o modo que tua mão me segura naquele preciso momento que, só por costume, eu soltaria. O segundo a mais, que dura no teu calor, que faz das noites sem lua menos escuras.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

#4

   Enquanto acontecia um papo repetitivo e as alterações nos nervos já se faziam presentes em alguns entusiastas de suas próprias ideias, ela percorreu o círculo disforme das pessoas, não havia tu. Discretamente ela partiu por uma calma investigação dos cômodos da casa através de cada janela, todos muito escuros, e suas vidraças fechadas. Colava a cara no vidro inutilmente para tentar espiar por algo, em um ou outro quarto distinguiu a cama, ou uma poltrona. Na parte de trás da casa, uma janela estava entreaberta, teve a impressão de ver uma fina fumaça se propagar pelo ar frio. Fumaça ou o ar úmido e quente quando exalado do corpo a cada expiração. Talvez tu estiveras lá, abandonado o cigarro no cinzeiro perto à janela, queimando esquecido, ou quem sabe ainda estavas, abandonando aquela conversa que ela também. Seguindo o costume o quarto estava escuro, porém as formas das coisas eram discerníveis, e até o teu contorno todo torto jogado numas almofadas no chão. O que queimava na janela era incenso, na sua boca o cigarro. No canto e só, você fuma em baixa luz. Tu não percebes que ela se apoia no parapeito e te olha, como se gruda à parede, funde-se no concreto, e atravessa o espesso ar embaçado do quarto, agora com a certeza que é fumaça. O único o qual o fumo foi permitido. Ela deita no teu corpo. Teu cigarro vai à boca, a tua, a dela. Uma mão desliza por baixo, uma outra se perde entre fios de cabelo, uma inerte, e aquela que guia o cigarro. É ela que tem a prazer da última tragada. Aqui fora faz frio, no entanto não é de inveja que aqueço meu corpo, nem preciso do calor do ciúmes. 
     Embora, que mesmo ao longe, eu pudesse escutar os gritos raivosos da discussão revisitada, eu prestava muita atenção no desenrolar de tecidos que os corpos teu e dela expunham aos poucos a mim. Não sei exatamente explicitar a diferença de luz do quarto e do lado de fora na parte de trás da casa. Ambos escuros, assim talvez me vissem, não importava. O teu corpo se rendendo a boca dela, dor, prazer e espasmos. Percebo que longe daqui, alguns caem na piscina, não sei se voluntariamente, ou se por vontade de piada alheia. Caminho até lá, alguns pelados por vontade própria na piscina. Amanhã vou cuidar de resfriados e não de bebedeira. Agora estavam todos dispersos, a discussão que começou agregadora terminou por dissipar todos pela casa. Ana chora num canto. Descubro, por ter seguido e espionado os passos dela, o caminho  que chegava até ti no quarto, e  por não querer fazer o jogo de te observar. Encontrei um choro por acaso, ofereço o que tenho, um ombro, um colo. Todos sabem porque Ana chora. Falou com certo pesar que gostaria de ser como as pessoas da piscina, a felicidade nua e fria. De chofre, para minha surpresa, chacoalhou a tristeza e contou que gostaria de lavar o rosto no banheiro. Avisei que havia água na piscina, portanto não há necessidade do banheiro, a não ser se houver receio do cloro. Ana foi a até a piscina, e se abaixou. Gustavo a convidou para entrar. Foi então que ela surgiu pelo caminho obscuro, entre a casa e o muro, pelo qual tinha partido, quando antes eu a havia seguido, mas és tu que sai spela porta da frente, segura meu braço, e ela sorri no momento em que passa por nós. Pedes um cigarro, ofereço o último, mas divides comigo. Acendes o fogo, eu trago  brasa.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Ganho Meu Dia

me acordas cedo, retiras lentamente a colcha de inverno, o frio inimigo desperta os pêlos dos braços, do torso e das pernas. me acordas cruel com a janela, o sol em riste lança ponta ardente sobre a pele que espalha e aquece. 
Sento na cama apertando os olhos forte pois é claro demais, tenho um pouco de frio, contudo tem sol deslizando calor com o carinho macio da tua mão nos meus braços, os teus já nas minhas costas e sua roupa contra meu peito nu. Te deténs por tempo de amor; me roubas um beijo do rosto; diz tchau com um sorriso onde o desejo velado se mostra permissível. 

sábado, 3 de setembro de 2011

Meses Longos

  Voltei a cuidar das plantas. No último sábado, fiquei a manhã inteira a espera do caminhão que entregaria a terra, cavei certo lugares onde achei que deveria colocar as novas sementes de flores recém adquiridas. Desisti das hortaliças, do tomate cereja, mas o pé de alecrim continua ali. Pedi a Marta por vasos, devem ficar prontos semana que vem, pedi dois bem grandes. Não tenho pressa em arrumar as coisas, e tudo ainda está um pouco revirado, mas não se preocupe, não deixo a bagunça adentrar a casa. A terra fica lá fora, junto dos sapatos, e dos utensílios, choveu bastante um dia, um lamaçal se formou, e achei que o melhor era desistir de tudo. Cuido do jardim sempre pelas manhãs, bem cedo quando acordo, não penso em desistir quando a terra está mais seca. Marta disse que viria me ajudar. Não sei o porquê, recebo ao telefone a voz de Marta todas as tardes. É bom, não reclamo. Tem dias que não falamos nada com nada. Oi, tá bem, tô e tu, tô também. Nos outros aparece um pouco de intimidade. Oi! faltam quatro vasos aqui, ah! aqui falta muito. Domingo vou aí, tá bem pode vir, eu vou, te espero. Apesar de não ser a sua, gosto de ouvir alguma voz ao telefone, às vezes me ponho a pensar que isso pode ser bem triste, ter que ouvir Marta todos os dias. Foi por isso que ontem não atendi ao telefone, tocou duas vezes até, fiquei pensando que poderia ter sido outra pessoa que não Marta. Você.
  Emagreci. Meu corpo não conhece nenhuma proteção inconsciente de armazenar gordura, como pouco, e os quilos se vão. Pareço estar doente, as maçãs expostas no rosto como se eu sofresse de anorexia. No entanto, não há necessidade de alarde, já voltei a comer, um dieta rica em gorduras, e tenho roubado muitas tangerinas do vizinho. Faz tempo que o Ricardo não aparece, ele não sabe do prazer que o inverno trás para cá. Tentei retribuir limpando as folhas do jardim, enquanto meu cesto se enchia de frutas. Havia calêndulas no jardim dele, foi aí que eu decidi transformar as alfaces em adubos para as flores que ainda vão crescer em nossa casa. Quando você chegar, quando for quase primavera, a casa cheia de flores. Imagino abelhas vindo nos visitar, e Marta também, que se sentirá orgulhosa dos vasos. Nicolas me ajuda na dieta de engorda. Faz comida, faz a mesa, faz meu prato. Senta ao lado para comer comigo, se estou só não sei comer. Desaprendi o que toda mãe ensina para as crianças bem pequenas, pegar o garfo e fazer a viagem interplanetária do avião que do prato alça voo até a boca. É a sua falta. Desaprendo as coisas. Somente ao seu lado que como de verdade, embora Nicolas faça eu comer com sua insistência e paciência. É bom, não reclamo. Perdi a aparência de doente. Para fazer a digestão, ele lê para mim, eu me perco na leitura imaginando um remédio ainda melhor para tudo isso.
  Houve uma festa esses dias. Foi a primeira vez que saí de casa desde a sua partida. Nicolas me levou de carro, e Marta também estava lá. Bebi bastante, drinks de tequila até o amanhecer. No sofá da casa da Valéria, eu dormi. O sofá era confortável por demais, outros dormiram em colchões espalhados pela sala. Nicolas dormiu ao meu lado. Como de costume acordei muito cedo e continuei ali no sofá, sem forças para me levantar, talvez para pegar um copo de água na cozinha. Acordei Nicolas, enquanto me ajeitava para sentar, ele voltou a dormir sob os meu afagos em sua cabeça. Parecia tranquilo, não mais a expressão nervosa e sofrida que teve durante boa parte da festa. Choramos juntos no porão, o quarto proibido de festa foi cedido por Valéria para Nicolas chorar em paz. Oliver se juntou a nós via telefone e perguntou de você, lembro que subi para deixar ele conversando com Nicolas sozinhos, mas tinha a desculpa de ter mais bebida em mãos. Algumas pessoas me perguntaram sobre você, não sabia o que responder. Ficou em casa. Estava aqui até agora, você não viu? Não sei. Desci as escadas do porão, Marta foi comigo, e Nicolas desembestou a falar sobre astrologia, comentando muito alegre da influência que Netuno traria para ele e Oliver. Adormeci, enquanto ele e Marta entravam em detalhes esotéricos de certos quadrantes, elementos e casas. Você entrando pela porta da frente, roubando as flores do jardim para me agradar ao avesso, com um sorriso faceiro no rosto, sujando de terra o quarto limpo. Sujando o meu corpo. Eu volto para casa e não há a sua sujeira, nem rastro dela. Quase sinto teu cheiro no guarda-roupa. Não sei. Sinto que o álcool impregna toda casa, mas talvez seja eu, que ainda sofro de dores de cabeça, enjoo e falta de água. Faz frio também. As arestas precisam urgente serem fechadas, tento empreender essa jornada, mas falho. Sinto fome. Que estranho, estou com fome, e cozinho. Quero comer as alfaces que enterrei, mas estão todas podres. Não gosto da minha comida, mas como, porque preciso de batatas. Ainda bem que Nicolas vem sempre aqui, deixa coisas e me cuida. Termino a louça, disco um número no telefone. Sua cabeça dói, sim e a sua?,  dói também, quer tomar um chá?, quero, você vem aqui?, vou, levo alguma erva?, pode trazer capim-limão, então eu levo, isso, traz e me ajuda com as plantas.


domingo, 28 de agosto de 2011

I don't wanna be friends

Esse modo de querer para si tudo que não vai lhe pertencer, de achar que somos coisas, que somos seus, suas coisas. Esse modo de me envolver nos seus braços como se eu alguma vez tivesse lhe pertencido como uma propriedade sua de direito, e que ainda a fosse. Ou que a reconquista faça parte dessa ordem barata, canhestra e calhorda das suas palavras sujas e mal escritas. Não é porque você se repete, estagnado em seus pensamentos mesquinhos, que eu preciso também repetir a exaustão as palavras violentas. Já lhe disse.
Não vim aqui dançar contigo.

sábado, 20 de agosto de 2011

#3

  Aquilo que disseste ao pé do ouvido. Oferecias recanto, meu rubor se fez passar por todo rosto, sorriso escondido. Recanto de calor e perfumes. Teu cheiro pertinho tinha dificuldade de ultrapassar esses pingos de chuva, as fumaças de tantos cigarros, o álcool barato que me ajudava a ruborizar. Eu disse não àquilo. Mesmo do júbilo de me sentir mais quente e de sentir próximo o aroma impregnado, o qual teu corpo exala, exílio em mim. Deixaram a impressão, a sua respiração quente, meu rubor e seu toque sutil de ar e palavras, do frio que passou. Tremiam minha pernas por algo louco, que nem sei imaginar. Não de frio. Por um breve momento esqueci por completo o que era o inverno, o escuro, a noite, ou melhor, a noite sem lua.
  Ainda te sentia, fingi não acreditar que era possível atravessar horizonte feito só de neblina, o alvéolo protetor dos tolos que garantiria a sua estadia por perto. Há urgência de ti cada a passo dado, minuto passado, passo e repasso ao lado dos rostos baços, onde está o teu? Lívido pela quentura própria. Líquido para me deixar corado. Em outros braços, foram outras que me aqueceram em abraços longos, pude me alongar em procura, com a vontade no corpo acesa. Ali, aqui, por lá, cá, faço um volteio. Volta e meia e me perco. Alçado num pensado da chuva, no banho em porto alegre, os pés molhados em são paulo, o frio de curitiba, a torrente de vento em nossa senhora do desterro, ressaca à beira mar no rio; a chuva com os murais das cidades. Um passo em falso e me encontras em paço falso. Me cortejas. Então como se vestisse um manto, ando majestoso, e ninguém me vê, só teus olhos me acompanham.
Sou o dono do mundo.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

falta alguém

Tento manter uma alimentação correta, não restrita, só estou a evitar os exageros. Tento manter uma linha, ainda que sinuosa, na qual peçados de pizzas são sempre bem-vindos. Sei da necessidade dos cuidados com o corpo, subo escadas quando posso e prefiro caminhar distâncias a percorrê-las de carro. Com alguns invernos, aprendi a proteger a garganta e por meias nos pés para dormir.
Tal cuidado com o corpo, porém, não se trata de bem estar, geração saúde, bom-mocismo. Protejo com alguns prazeres, pois as dores atacam forte o peito. Uma tensão aqui, um repuxo ali, não há como se livrar de apertos quando ouço sua voz ao telefone, ou até quando a imagino. Se você me escreve, é uma ferida que abre, suas palavras me passam através, me traspassam. De outra forma são as palavras dela que alargam a ferida. Ou telefonema de um outro que ao acabar projeta a dor pelo corpo inteiro. Ou uma outra que me dá um almoço, um passeio no parque, água, sorvete e bolo quente, para então sair correndo depois de nosso abraço. Ou as feridas que eu inflijo. Todos vocês, ao longem, fazem crescer pescoço acima ramificações mínimas que se espalham pelos canais, nos quais folhas nascem pequenas para todas as noites recolherem o orvalho salgado(não é a toa que eu presto muita atenção na quantidade de sódio de alimentos industrializados).

quarta-feira, 27 de julho de 2011

#02

Certo? não digo
se eu explico é
enfado a mim a
ti amor
a ti eu tenho.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Aniversário

Romeu diante da porta, debaixo de chuva bem forte, eu diante do carro mediante ordem sua, com o guarda-chuva, a fim de proteger da tromba d'água o querido Mike. Demorei um pouco para conseguir abrir a porta de casa, e Romeu não entrou atrás de mim, falava alto, eu ensopava a sala toda entrando daquele jeito. Ajeitei Mike na estante, ao lado de um porta retrato que está vazio há alguns anos. Voltei e peguei Romeu no colo, fomos até o banheiro, para a água quente. Então pediu que eu preparasse um chá. Infelizmente os sachês de chá de menta acabaram, mas há leite e... nunca falta chocolate nessa casa, ele complementou ao se entrometer na minha fala. Sim, Capitão! E continência da mão e postura. Pedi que ele não demorasse. Coloquei leite para esquentar. Busquei panos de chão e tentei secar as poças de água espalhadas pela casa. Já não vestia o tênis, o casaco, e calça. A preguiça me levou a simplesmente colocar os panos onde havia deixado molhado. Romeu riu ao me ver de cueca e camiseta. Riu pronto, vestido com sua bela fantasia de menino-ninja segurando meu tapa-olho de pirata nas mãos. Romeu e sua habilidade vulgar de me deixar sempre em dúvida, de parecer sempre saber de tudo antecipadamente. Ele correu e eu briguei com ele, escorregar nos panos, não mesmo, sou um ninja habilidoso. Ele estava elétrico, vestindo aquilo que eu espero que ele ainda pense ser o seu presente de aniversário. No banho imaginei as crianças todas correndo como ele, dentro de casa numa gritaria incessante, aborrecidas com toda a chuva e ao mesmo tempo animadas, molhando, sujando todo o tapete persa da sala, o sagrado presente da nova sogra. As paredes no fim da noite teriam manchas marrons, originadas dos esbarrões das crianças sujas de lama correndo pelos corredores. E se Romeu já soubesse, a supresa da festa à fantasia surpresa, pensada tão cuidadosamente por Alice, não haveria.
Vesti minha roupa de pirata, chapéu, tapa olho, um resto de figurino chinfrim à pirata caribenho. Coloquei Mike no ombro, Romeu constatou sério, ele não é um papagaio. Tirei Mike do ombro fui até o carro, coloquei Mike na poltrona de Romeu para finalmente retornar a Romeu e o acompanhar até o carro. Me senti bem sucedido quando Romeu perguntou surpreso do porquê estarmos parados na frente da casa da sua mãe. Sorte minha ele não ter perguntado dos muitos carros estacionados ao redor. É seu aniversário, é claro que ela quer te ver. Fomos até a porta de entrada. Pedi para ele levar Mike, e o levou no colo. Ele apertou a campainha da porta.
Morgana atendeu. Abraçou Romeu, levou ele ao colo, então o largou e me beijou o rosto, envolvendo-me primeiro em um abraço leve e longo. Estavam na sala os velhos amigos e os parentes de Alice. O abraço de Morgana durou Romeu receber os parabéns de Oliver, da irmã de Alice, Sofia, e seu marido, Davi, e finalmente do segundo pai, Marcelo. Nenhum deles fantasiados. Senti que Morgana estava com pena de mim. Sofia também me deu um abraço longo, percebi o quanto ela havia crescido, um abraço de amigos de infância. Davi nos abraçou e me deu um beijo no rosto. Um gesto como se eu ainda fosse da família de Alice. Romeu estava no colo de Marcelo, eles entraram na sala de jantar, Oliver me pegou pela mão, não queremos perder a cara de surpresa de Romeu. Por certo não. Sofia segurou na minha outra mão, Romeu terá um primo, então tive que a abraçar, logo depois, abracei Davi, queremos que tu sejas o padrinho, enquanto o "surpresa" era falado em uníssono do outro lado da casa. Perguntei quantos meses, fazia pouco, passaram 5 semanas que o planejado bebê havia sido concebido. Alice veio nos cumprimentar, e eu inadvertidamente a cumprimentei, olá, titia Alice, e ela me olhou como se não soubesse de nada. O olhar meio de lado, franzindo a testa de leve, e a boca ligeiramente crispada, ela se virou para Sofia, mas foi Davi quem anunciou: estamos grávidos. O olhar de censura que Alice lançava para Sofia desviou para Davi, também esboçando um certo desdém. Romeu tinha vindo atrás de Alice, e ela resolveu usá-lo como escudo. Tens um primo a caminho. Ou prima, completei. Agachei e pedi para Romeu pegar algo para eu beber, ele pediria uma bebida de adulto para o Marcelo, cerveja em lata. Antes do seu retorno, eu pedi à Alice que fosse um pouco mais educada com a irmã dela e a todos que me desculpassem pelo pequeno erro de antecipação. Alice ia se defender com alguma ironia dirigida a mim. Fui mais rápido, e cruel, não seja amarga. Alice abraçou Sofia, foi um abraço longo daqueles que parecem ótimos, mas foi frio e sem vontade. Romeu chegou com a cerveja nesse momento e reclamou que queria abrir os presentes. Pedi para ele falar com Sofia antes. Finalmente cumprimentei Marcelo, ele tentou uma piada gestual, a do tipo que presta um tipo de elogio e o faz de forma zombeteira, e afinal eu ri, forçando um sorriso no qual eu supunha debochar dele pela piada ruim, guerra de adultos. Vi que Oliver tinha Mike nas mãos, enquanto me apresentava aos pais das outras crianças, eu o pirata cervejeiro. Havia muitos batmans, e achei extraordinário eles não serem repetidos, preto, cinza e preto, cinza e amarelo, preto e amarelo, azul e cinza. As meninas em usuais vestidos de princesas. Outra hora eu iria desabafar para Morgana, é uma festa de fantasia, essas meninas são tratadas sempre como princesas, é roupa do dia a dia. Como se você não tratasse Romeu como uma criança ninja. Romeu quis mais uma vez abrir os presentes, embora soubesse que só poderia fazê-lo depois da festa. Até esqueceu de Mike. Oliver, que ficou de babá da criaturinha branca, ao me ver passar, me convidou para um passeio, uma viagem ao interior, com visitas e praia. Disse para levar Romeu e que Morgana iria. Assim, seria fácil convencer Alice de levar o menino. Contei que eu havia estado lá quando Romeu era pequeno, e que tinha saudades do Nicolas. Fazia quase cinco anos, lembro porque o Mateus estava junto, e eu era um recém divorciado. Mas vocês não se casaram, Oliver insistiu, o que exatamente você sabe sobre estar casado Oliver? Foi então que ele me contou que estava namorando. Davi nos interrompeu, para me contar novamente que eu seria o padrinho, a criança nem tinha nome, mas ele brincou dizendo que se fosse menino poderia ser Mercucio. Eu aconselhei que não, pois sabia que Sofia entraria facilmente na onda.
Em algum momento, alguns batmans decidiram que o pirata era um arqui-inimigo, a chuva tinha parado e eu corri como nunca pelo quintal alagado de Alice. Eu e mais alguns meninos sujos nos tênis e nas calças. Romeu observou de dentro de casa. Assim como Alice, os pais não acharam tão divertida a brincadeira. Alice quis me proibir de entrar sujo, mas teria que proibir os outros meninos. A sala na entrada ficou com pegadas de barro, nada sério, nada muito sujo, umas marquinhas, enquanto os meninos levavam bronca dos pais encontrei cumplicidade no olhar de um deles. Viu o Romeu? Balancei a cabeça para pergunta de Alice, ela foi olhar lá fora. Eu tirei os sapatos, subi as escadas. Romeu organizava seus presentes. Perguntei o que tinha acontecido, ele demorou, mas respondeu que queria abri-los. Não havia um presente aberto. E por que não abriu? Ele pegou um pacote pequeno que era uma caixa envolta por um laço - o presente que eu havia comprado para ele - e entregou para mim. Qual a graça de se abrir presentes sozinho?


domingo, 26 de junho de 2011

ser

Foi por uma busca de identidade.
Aquela pequena parcela de eu presente em pequenos momentos,
muito mais atrativa em outro idioma
para as pessoas que são de outro idioma. Sei que me afasto desse
pensamento em português, viro outro eu, outros. Isso já é certo.
O que não é certo é onde(no tempo) eu encontro
essa outra identidade conhecida
Se a felicidade vem
é por motivo de soltura e transparência,
risco.
Se há algum medo é do eu achar
que engana melhor, por aprender a gostar de algumas mentiras.
se o risco é um golpe
no peito, não há
engano, um eu medroso
mata outros possíveis.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

último dia de outono

Cheguei mais cedo. Sabia que você se atrasaria, sim, eu sabia, mas não pude evitar de querer chegar antes, conseguir fazer dessa espera todo o fim da tristeza, então desapareceriam todos aqueles pensamento sombrios sobre a sua fala apressada ao telefone, as palavras secas tecidas no email, o olhar desatento enquanto você come, e eu falando sem deixar transparecer o fio de gelado se entrelaçando na rede de meus pesamentos. Por vezes sórdidos. Hoje não. Eram claros como o céu sem nuvens, daquele azul de doer os olhos, os meus sensíveis a muita luz. É por isso que eu te espero na sombra, o seu atraso de poucos minutos. É o sistema de trânsito que lampeja, e me dou por convencido. Não há pressa debaixo da aroeira-mansa. Essa espera doce de esperança picante.
Sem sombra de dúvida, o ônibus. Meia hora, e há nuvens muito brancas, pouco densas e divertidas com seus formatos rarefeitos. Resolvo caminhar, ando em círculos para não me afastar demais, são círculos amplos. Acho que você não vem.
Procuro algo para tomar, faz um pouco de calor hoje, parece ser fora do comum, mas ao mesmo tempo isso é banal. Só não quero que não chova. Aqui sempre chove. Tento te ligar, isso vai afastar qualquer mau tempo de espera. Entre um tum e outro, um lá e outro - segundo a amiga musicista - a eternidade que faz a batida do coração entrar em descompasso, peito tão vibrante como cordas que gritam o seu nome, gritam um monte de coisas, a fantasia que eu costuro: o seu abraço. Ele não vem, não é? O celular me confirma, não há alguém do outro lado.
Silencioso. Meu sorriso renasce. Há coisas que não vibram, até mesmo o vermelho pode ser tão opaco que não atende ao desejo de ninguém, vermelho de sangue quebrado pelo asfalto, com seus pequenos cacos. Imagino seu celular inutilizável. Começo a tomar cerveja no bar do outro lado da rua, pelas grandes janelas de vidro posso te ver, e sei que estás para chegar, e já não culpo o péssimo planejamento dos transportes. No céu as nuvens já ocupam muito espaço, esse algodão celeste em forma de tudo. Água no estado mais lindo talvez. Me pergunto se nuvens são quentes e molhadas, tal qual seus beijos, nem sempre suaves, eles são mais adeptos à tempestades.
Acabo com duas, três gafarras, e o sol também se acaba. Está escurecendo.
Caminho pela rua. Está ventando forte, acho que sempre venta por aqui, tenho frio. Sempre sofro por não pensar no clima do dia inteiro, não saio com casacos quando deveria saber que a noite será fria, não levo guarda-chuva nos dias que ela é dada como certa. Pouco me importa o clima. Meu frio não é pela falta de um casaco fechado, não é por vestir a camiseta leve, um jeans claro. A neve desse inverno foi você quem trouxe.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

dormindo só

Deitou, as costas disformes no colchão macio, adormeceu depois de um tempo, ali parado, imóvel, com um vento frio invandindo pela fresta da janela. Pensou em colocar meias para não se resfriar, pensou em bolar um plano com lençóis para tapar as frestas, pensou até em se abarrotar com pesados cobertores. Nem se mecheu, pensou que aguardaria Julio César se deitar ao seu lado. Nunca havia chamado: Julio César. Entretanto, o nome veio comprimido porque chamava atenção, a tensão do seu desaparecimento. Ele sempre voltava a noite.
Fez frio a noite toda, e dormiu mal, os pés gelados, sem outra fonte de aquecimento. Um barulho alto vinha da sala, e o sol brilhava quente. Todas as frestas deixavam raios incólumes atravessar o quarto, aquela poeira iluminada. Julio César estave me chamando. Parecia abatido, no sol, fazendo-se quente na parte do piso ensolarado; meus pés gelavam, pisando pelo resto da casa. Peguei leite para nos servi, ele veio não muito contente, arrastado, lento, naquele movimento lindo de deformação dos ombros. E veio falar comigo. Falou antes de beber o leite, como se nem gostasse - ou nem quisesse, falou da noite que passou fora, dos lugares desconhecidos que visitou. Noite fria de perseguições, e amizades fugidias. Ele contou de uma briga, que saiu sem nem um arranhãozinho. Fugiu, pensei. Contou que havia se sujado bastante, mas que tomara banho antes de eu acordar. Então, a porta abriu, e não era ninguém, ouvi passos, e não era ninguém, senti alguém me tocar os cabelos, e Julio César havia desaparecido. E o panfletos com seu rosto deitavam espalhados pelo chão, que já estava quente, mesmo sem sol, com o vento. Algo cresceu em calor e decibéis, como um estouro. Um gato entre os pés, o barulho do banho.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A batalha.

Num campo, ouso sim chamar de campo, mesmo sendo um cerco incompleto, com as saídas exatas, sem muitos mistérios urgentes. Ouso chamar de campo, não pela vastidão de espaço, nada verdeja, se tensiona, aumenta: é a chegada das pessoas. Essa lonjura que faz por proximidade ingênua, destaca reluzentes materiais ferrosos, metais cristalinos, cheios de pompa e ostentação, seja do brasão favorito, ou o simples desejo esteticista através de caro ornamento, contudo não se furta deixar em perspectiva obliqua, é também fetichista. Essas armações límpidas e brilhantes de coletes e elmos, feitos de gases purificados em estados sólidos -prontos para sublimar- de exposição e sedução, ainda aqui se encontra mais um fetiche glamuroso digno de fofoca. Por isso a distancia não é de um descampado, ao contrário, é milimetricamente despreparada, arranjada e moldada pelos confrontos, o que torna ainda mais charm. fetic. a falta de espaço, objetivo imprescindível. Por aqui é preciso expor a força de conquista dos estratagemas. Não adianta, ninguém mais leva os escudo de madeira, porosos que deixam ter furos, camadas e camadas de jacarandá não são vontade, implica antiquados, a madeira só se apresenta na presença rarefeita de tóneis de carvalho, intuido de descolamento, delírio, ritmo, e se possível, esquecimento. As armas de longas distância são amplamente utilizadas, eficazes a trinta ou a quinzentos e oitenta e sete centímetros, varia conforme o grau de luz, por certo, onde há lançamentos, os olhos faceiros. Às vezes, cegados por aparelhagem armamentícia do não teu inimigo - sedução de outrem, investida ao seu lado; talvez nunca percebidos, a não ser ao pipocar o brilho estrondoso do xénon.
Como já foi dito, tudo gira entre dois pólos, o que quer pertencer ao corpo, e o quer tirar qualquer pertencimento. E se fosse um jogo, ele é mais complexo, não se é um ou outro, pois no entrave de encontros, não são um ou dois, eles todos se fazem possíveis. Um mar de ondas. Depende do pólo do outro, as transfigurações polares internas, inúmeras, traz calor, e no extra-campo faz frio, acho que por causa do vento. O extra-campo importa mais que o campo. Mas isso deve ao desenrolar das atividades em campo que explodem por lá. Extra! Extra! Bêbados alvo de notícia.
Numa batalha, não há vencedores. Não existe ganho de destruir o outro, não é jogo. A batalha é um pano, quem vence? Eu sufoco aos poucos.

quarta-feira, 30 de março de 2011

#01

Você pode bem dizer, que
eu comi chocolate em excessos, e que as paredes
necessitam urgentes da pintura, e que no
chão abunda poeiras irritantes, e que meu pés
gelam insistentes a cama, e que serão
tantos vasos de hortelã que eu vou deixar
morrer e que as palavras me ferem e que eu sujo
tuas roupas não lavo as frutas, e que eu deixo
casca voluntariamente no seu ovo.
Aí, você vai se encontrar com alguém
e dizer, que
eu estava no chão que
eu não falava nada que
eu não olhei sem
que eu não ia
que eu sou
eu não entendia
que fiquei mudo
que eu
te machuquei

#ao meio

Um dia de vento forte. Sempre há vento por aqui. O dia começou como um outro qualquer, a maioria das vezes é assim, nunca se sabe o quão importante o dia será. Eu estava lá, ela junto, mesmo que afastados. Não havia mais ninguém. Por causa do vento as pessoas fogem para onde se pode aproveitar melhor, porém nós nunca nos importamos. Era gostoso mesmo toda a areia ficar presa no cabelo, era doído e corrosivo, mas, assim, bem pouquinho, então parecia nos pertencer, a base desse arranhão carinhoso de areia vento. Nesse dia, sim, o vento tinha força, parecia revigorado. Não sei se era eu, sentia o vento faceiro, roçando brutalidade de uma alegria infante, vento, o jovem deus. Em sua companhia, aventurávamos ela e eu, todos aqueles dias de verão. Não tenho lembrança das chuvas, uma nuvem no céu nunca era bem vinda, o vento, como um belo amigo, a levava embora, foi uma estação ombrofóbica.
Foi num dia de ondas altas. Nunca há ondas por aqui. Pisamos na praia como um dia qualquer. Apesar de todo espanto visível em nossos rostos, não dissemos nada. O mar calmo de sempre, a piscina salgada e fria, naquele dia parecia um turbilhão

quinta-feira, 24 de março de 2011

quando os hiatos ocorrem

Alguém me contou que o outono chegava hoje.
Imaginei que olhavas para mim, e uma palavra
simples foi dita,
ditado escolar para saber diferenças gramaticais,
conjuntos complexos de ortografia, avança agudo
com regras condutas, anexos excedentes e
alguém me falou que outono chegara há dois dias,
é assim, por bel prazer que modifica
a ciência, as grafias calendaristas
como a verdade refeita, por descobertas.
e com tarjetas pretas alocadas em negativista
plutão deixa a turma dos planetas, teu primo pobre oh
lua que ainda, sendo louca, pode criar o teu mundo
que é meu também.
Tu não me olhavas e eu senti
que ias falar que o verão já se fora,
eu quis chorar, mas escondi
por esse medo dessa distância
de você não me tocar.
Envergonhado, esperei silêncioso
não caia folha, e pensei talvez
dois dias fosse o limbo sem qualquer estação,
era cedo, chove e permanece quente.
Imaginei que me olhavas quando soltei
uma palavra de fonética simples, a voz
tão pesada quanto quaisquer dizeres complexos.

terça-feira, 8 de março de 2011

depois daquele

das mazelas de um amor que não corresponde
um traço vertical pinga
inflige danos à garganta,
não caio, não bato, só sangro
uso ataduras sujas d'outros sonhos.
eu pulo, eu me gasto
eu bebo, eu canso de
prenteciosas vocações banais,
como a falta de
dor e de encanto.
são poucos encontrados, sou
louco, inchado, todos
quietos na cama sem amassos.
pode levar ou estraga, estou molhado,
estou na chuva para... estava na chuva e
você para.
esta chuva já cessou de ser para se molhar.
Se o que sai é sol
dispo-me de seus resquícios ainda úmidos
desejo que só que arde queima atiça.
Você ainda molha as ruas, e eu
ainda posso sair sem guarda-chuvas.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

semana longa

Gostaria de te dizer simplesmente, chegou uma correspondência. Não, não fui aos correios buscar as contas da casa. Ainda falta uns dias para o fim do mês. Nem vi quando aterrisou solta por baixo da porta, estava na cozinha preparando algo para comer, algo bem sadio, bem leve e bem pouco, a satisfação me preenche o corpo com o mínimo, sem teu toque me contento com quase nada. Não peguei de imediato, ficou ali perto da porta a tarde inteira, antes de anoitecer, eu tirei do varal algumas roupas, lavei suas roupas de inverno que já exalavam um cheiro, não o seu. Um mau cheiro que não vem de ti, mas do velho guarda-roupa do seu pai. Assim como alguns móveis da sala e a mesa da cozinha, herança do velho pai. Ele sempre gostou de mim, acho que até mais do que gostava de você, disse-me coisas no leito do hospital, pois eu o havia chamado de pai, mas nunca ousei falar de ti como irmão. Talvez seja isso, ele chamava Morgana de filha, e você pelo primeiro nome, inteiro, nunca o costumeiro apelido carinhoso que encurtava o seu nome. Podia ser que a relação incestuosa entre nós o assustasse, e a mim também. Fostes édipo não consentido, você é o filho renegado que ficou com a herança dos móveis antigos. O guarda-roupa está agora com as roupas de inverno limpas, organizado por tecido, estação e cor.
Achei charutos nas suas coisas. Acabei com a sua privacidade, reservando apenas as gavetas trancadas e as caixas lacradas. Seus cubanos, fumo um todas as noites. Leio um livro numa luz de luminária moderna. Tem feito frio de noite, portanto, uso pijamas, mas o cheiro do charuto impregna na roupa. Lembrei em algum momento do livro o envelope misterioso. Não sabia se era para mim ou para ti, mas tinha medo que fosse seu, e assim acabar com a sua privacidade das coisas seladas. A cola dos envelopes misteriosos que possuem seu nome, os cadeados frágeis que se desintegrariam com qualquer toque de um martelo, ou as chaves que abrem as gavetas guardadas sem segredo no escritório.
Sim, seu nome, mas o meu também. Como dos casais. Dentro uma foto que Morgana havia tirado. Havia um bilhete e eu não quis ler. Não quero ver ninguém, nenhuma visita, mesmo dessas pessoas que eu amo tanto. Talvez Morgana e os amigos dela estivessem por perto, ou pagaram para alguém dos correios entregar na porta de casa. Pode ter sido você, eu não li.
Estou fazendo anotações e riscos importantes no seu livro predileto. Quero me marcar nele nesses dias sem você. Pensei em passar amanhã nos correios, comer num restaurante, e me estender na tarde com algum velho amigo regando o corpo com café e doces deliciosos.
Sinto fome pela primeira vez. Me masturbo na poltrona do nosso falecido pai, mas que já trocamos os estofados diversas vezes, estampas floridas como chitas, porém chiques e aveludadas. Me masturbei sobre as flores falsas da poltrona. Não pensei em você.
Luz, água, fatura do cartão, telefone seu, e o meu também, a conta da televisão a cabo que a gente paga para sua mãe junto do telefone e da internet. Aproveitei para pagar, não há filas no dia 29. Comi em um restaurante japonês, que sempre vou com você, e me perguntaram onde você estava. Menti que você estava viajando a trabalho. Comi, segurando o choro, sushi, shitake e shimeji. Depois fui até a casa Nicolas, Oliver estava lá também. Recebi os mimos dos meninos, Nicolas sempre tão alegre, e Oliver na mesma tristeza de sempre. Havia uma criança na casa. O filho de Alice, sei que você já o conhece, mas não sei se ele lembra de você. O pai dele o buscou no começo da noite, lembro de Sabrina que era apaixonada por ele. Os amigos de Morgana. Como eu imaginei foi Oliver que deixou a foto. Disse para ele que não havia lido o bilhete. Vimos um filme e dormi por lá mesmo, nos braços de Oliver. Ele tem esse jeito que eu acho meio adolescente de fazer carinho demais, de trocar carícias como se ele ainda fosse uma criança inocente. Acho que ele é. Nicolas nos levou à praia. Que bela manhã, o sol forte e o mar calmo, mesmo eu preferindo o contrário. Sol fraco e mar agitado. Fomos para a casa. A nossa. Almoçamos e fumamos seus charutos no jardim, bebemos as garrafas de alcóol que guardavámos para uma ocasião qualquer, escolhida como especial. Cada um com sua própria, Whisky, conhaque, cachaça. Daí você telefonou e perguntou onde eu tinha ido na tarde anterior. Minha resposta sedutora e suplicante: Volta que eu te conto. Você ficou quase uma hora falando ao telefone. Chorei, e você também. Quando desliguei, vi os meninos no quarto de hospedes pela porta entreaberta, derretidos um sobre o outro, nesse dia 30 quente. Li no jornal que foi o dia mais quente em não lembro quantos anos. Sete? Eles não demoraram muito, Oliver me viu enquanto Nicolas anunciava seu fim, um pouco antes era ele que havia se contorcido em deleite. Ele voltou a olhar Nicolas e lhe dar atenção. Nicolas lhe beijou o pescoço e quis descansar no seu ombro. Eles acabaram cochilando, e quando acordaram havia comida na mesa.
Nicolas foi embora, Oliver deitou no quarto de hospedes ficou lendo, enquanto eu me ocupava no seu livro na luz da sala. Mais tarde me juntei a ele, conversamos muitos, ele chorou, mas eu não, embora quisesse. Oliver gosta de ser o único a chorar, ajuda-o a melhorar o humor. Segurando a minha mão ele adormeceu, com a outra eu me masturbei, dessa vez pensando em ti.
Acordei e havia dois bilhetes sobre a mesa. Resolvi ler primeiro o que surgiu misteriosamente pela porta junto da foto. Nada de mais, Oliver estava aqui com Romeu, na casa do Nicolas, e que Morgana chegava hoje. O outro, confirmou a minha dúvida, ele havia ido buscá-la. Passou pela minha cabeça de ter uma reunião familiar amanhã pela noite, você estaria pela casa e após os convidados partirem, depois de comerem algum prato e beber e muitas taças, nós nos perderiámos por toda casa numa noite de pervesões. E no fim me colocarias na cama, e beijarias meu sexo. E me verias pegar no sono afagando meus cabelos.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

carta de amor não escrita

pensei e repensei se enviaria a carta. Fiquei horas procurando o melhor papel que eu tinha, e a caneta mais bonita, talvez até um lápis de cor. Azul escuro em papel ocre.
Não importa, escrevi num tipo rasgado com a primeira esfereográfica que apareceu, qualquer uma
que falha em alguma metade de palavra. Não importa, escrevi e reli, e então era todo dado. Parecia um cachorrinho esperando por comida. Daqueles que usam de suas caras mansas para os sórdidos pedidos de carne.
Nauseado. O rosto estendido a espera, me entregando como um filhote faminto, contorcido de dor. Esperando de olhos fechados como se sol vermelho atravessasse as pálpebras. Esperando, sua resposta. Uma bofetada, o sangue entre os dentes em gengivas fracas e inflamadas, como meu rosto
inchado por socos, e rasgos com picotes por todas as partes. Nenhuma parte de mim escondida. Esperando sua mão desferir o golpe final. Que me faria cair no chão, sangrar o mundo, até nascer flores. Flores carmim. Vômito. Não me sinto bem, quero te bater, mas nem sei mais levantar. Nem sei o que significa fugir. Te espero que me recomponhas, cicatrize as feridas e me embale num sono, que mais tarde começa tudo de novo. Escrevo e você me sufoca com uma almofada colorida enquanto durmo.
Mas por algum motivo, meu rosto está ali esperando.
Tua carta não vem.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

dias longos

Deixou a casa. Seu cheiro perceptível no lençol não me faz deixar a cama, por todas as manhãs fico tanto tempo, pois não suporto, sem ti não há sossego, não há descanso o suficiente numa cama com seu. Não durmo. Acordo cedo, durmo tarde e me reviro a noite inteira, além daquela boa parcela da manhã, aquela parte do dia sempre improdutível, na qual nem tenho mais fome. Não tenho, e geladeira abusando de fartura: pães integrais, abacaxis cortados, morangos, torta de chocolate e cerejas. Não comi nada ainda. Logo vou, um dia inteiro sem nada passando pela garganta. Não falo, nem choro.
Resolvo, a solução é a lavagem rápida do lençol, troco com felicidade infantil o jogo de cama. Não sei. Não sei quando devo trocar de novo. Meu estômago finge ter poder sobre mim, e me envenena com uma dose de dor intolerante-ável. Jogo meu corpo contra o colchão embrulhado por limpos lençóis, só para me contorcer. Que tarde quente, implica que lasso se faz qualquer incômodo. Meu corpo suja suor na cama, o lençol tão novo. Não é amanhã que você vem. Não. Abro a geladeira, mas para vencer o a tarde quente. Essa carcaça velha e poeirenta não condiciona ar nenhum, sem contar o barulho interminável ecoando pela casa, só permito à geladeira tal ruído. O sol branqueia a tarde, deito na grama, na sombra, suando. Não sei fazer nada nesses dias sem você.
As nuvens do fim da tarde trazem todo pesar, barulhentas e nervosas gritam o que me prende a garganta. Tumulto, entro em casa junto do vento que balança todas as cortinas. Tiro lençol que persistia em ter seu cheiro do varal, mesmo limpo, mas não sei, a chuva pode lavar você ainda mais, já não racionalizo, por certo. Permanece assim um tanto solto, preso com um grampo ainda, que talvez nem resista ao vento. Se sujar, já dormimos tantas vezes em lençóis assim. Fome, os morangos já não estão bonitos. Como-os devagar, sinto uma fraqueza, calor, moleza, alguns frutos eu aperto porque acho tão lindo, escorre um líquido rubi, aperto contra o corpo, a mancha mais tarde se parecerá com sangue, outro tipo de líquido rubi, meu corpo nu, pois sempre me dispo quando não há ninguém vagando pela casa.
Vomito, não me desce o bem-estar sem você.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Um Senhor gole de Veneno

Após,
uma espera intolerável
que inunda esperança quando se dá o leve toque .
e um arrependimento tardio irrompe a todo custo
a toda hora, sou
uma desgraça.
faz-se necessária a maior dose
no ensejo
muito despojamento
coragem com tamanho veneno em veias escuras pela pele branca.
só assim
é menos lenta essa dor
amor-te.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

sem doar as palavras

esboçada a conversa
tola e pesqueira
olhos batem
e desviam ou
batem de esguelha
durante a noite inteira
um autochoque que fatiga.
deu um minuto, a partida
ninguém bate
desliza.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

casa nova

Produzo tanto
tanto lixo.
limpeza alegre dos pertences
da sala da cozinha
duma área bem pequenininha,
ou aprender uma aria, limpeza musical
dos pertences dos pais
das memórias infantis que me desfaço aos poucos.
e dessa vez foi muito,
bom se livrar das tranqueiras paternas.
a vida da minha mãe escutando os vinis do ivan
agora lá embaixo, todos os domingos de manhã.
o corredor fechado para não acordar as crianças.
era o primeiro, cedo
tem sido difícil, causa
noite a dentro de mim.
Falou hoje, comentou da limpeza.
ela não entende, não há mais a casa
voz triste, dói tanto perder a casa
ao poucos
uma enxurrada
de lixo. metais
barulhentos, madeiras
pintadas,
tudo abaixo.
caixa de bebida vazia
apesar da limpeza, veneno reina a cozinha, forte e se esvai com vento.
o corredor fechado para não enfeitiçar as crianças.
Ventila as dores pela cozinha, cozinha
quarto, sala, perto da janela
raminhos de arruda:
proteção doméstica que aprendemos com ela.