quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

semana longa

Gostaria de te dizer simplesmente, chegou uma correspondência. Não, não fui aos correios buscar as contas da casa. Ainda falta uns dias para o fim do mês. Nem vi quando aterrisou solta por baixo da porta, estava na cozinha preparando algo para comer, algo bem sadio, bem leve e bem pouco, a satisfação me preenche o corpo com o mínimo, sem teu toque me contento com quase nada. Não peguei de imediato, ficou ali perto da porta a tarde inteira, antes de anoitecer, eu tirei do varal algumas roupas, lavei suas roupas de inverno que já exalavam um cheiro, não o seu. Um mau cheiro que não vem de ti, mas do velho guarda-roupa do seu pai. Assim como alguns móveis da sala e a mesa da cozinha, herança do velho pai. Ele sempre gostou de mim, acho que até mais do que gostava de você, disse-me coisas no leito do hospital, pois eu o havia chamado de pai, mas nunca ousei falar de ti como irmão. Talvez seja isso, ele chamava Morgana de filha, e você pelo primeiro nome, inteiro, nunca o costumeiro apelido carinhoso que encurtava o seu nome. Podia ser que a relação incestuosa entre nós o assustasse, e a mim também. Fostes édipo não consentido, você é o filho renegado que ficou com a herança dos móveis antigos. O guarda-roupa está agora com as roupas de inverno limpas, organizado por tecido, estação e cor.
Achei charutos nas suas coisas. Acabei com a sua privacidade, reservando apenas as gavetas trancadas e as caixas lacradas. Seus cubanos, fumo um todas as noites. Leio um livro numa luz de luminária moderna. Tem feito frio de noite, portanto, uso pijamas, mas o cheiro do charuto impregna na roupa. Lembrei em algum momento do livro o envelope misterioso. Não sabia se era para mim ou para ti, mas tinha medo que fosse seu, e assim acabar com a sua privacidade das coisas seladas. A cola dos envelopes misteriosos que possuem seu nome, os cadeados frágeis que se desintegrariam com qualquer toque de um martelo, ou as chaves que abrem as gavetas guardadas sem segredo no escritório.
Sim, seu nome, mas o meu também. Como dos casais. Dentro uma foto que Morgana havia tirado. Havia um bilhete e eu não quis ler. Não quero ver ninguém, nenhuma visita, mesmo dessas pessoas que eu amo tanto. Talvez Morgana e os amigos dela estivessem por perto, ou pagaram para alguém dos correios entregar na porta de casa. Pode ter sido você, eu não li.
Estou fazendo anotações e riscos importantes no seu livro predileto. Quero me marcar nele nesses dias sem você. Pensei em passar amanhã nos correios, comer num restaurante, e me estender na tarde com algum velho amigo regando o corpo com café e doces deliciosos.
Sinto fome pela primeira vez. Me masturbo na poltrona do nosso falecido pai, mas que já trocamos os estofados diversas vezes, estampas floridas como chitas, porém chiques e aveludadas. Me masturbei sobre as flores falsas da poltrona. Não pensei em você.
Luz, água, fatura do cartão, telefone seu, e o meu também, a conta da televisão a cabo que a gente paga para sua mãe junto do telefone e da internet. Aproveitei para pagar, não há filas no dia 29. Comi em um restaurante japonês, que sempre vou com você, e me perguntaram onde você estava. Menti que você estava viajando a trabalho. Comi, segurando o choro, sushi, shitake e shimeji. Depois fui até a casa Nicolas, Oliver estava lá também. Recebi os mimos dos meninos, Nicolas sempre tão alegre, e Oliver na mesma tristeza de sempre. Havia uma criança na casa. O filho de Alice, sei que você já o conhece, mas não sei se ele lembra de você. O pai dele o buscou no começo da noite, lembro de Sabrina que era apaixonada por ele. Os amigos de Morgana. Como eu imaginei foi Oliver que deixou a foto. Disse para ele que não havia lido o bilhete. Vimos um filme e dormi por lá mesmo, nos braços de Oliver. Ele tem esse jeito que eu acho meio adolescente de fazer carinho demais, de trocar carícias como se ele ainda fosse uma criança inocente. Acho que ele é. Nicolas nos levou à praia. Que bela manhã, o sol forte e o mar calmo, mesmo eu preferindo o contrário. Sol fraco e mar agitado. Fomos para a casa. A nossa. Almoçamos e fumamos seus charutos no jardim, bebemos as garrafas de alcóol que guardavámos para uma ocasião qualquer, escolhida como especial. Cada um com sua própria, Whisky, conhaque, cachaça. Daí você telefonou e perguntou onde eu tinha ido na tarde anterior. Minha resposta sedutora e suplicante: Volta que eu te conto. Você ficou quase uma hora falando ao telefone. Chorei, e você também. Quando desliguei, vi os meninos no quarto de hospedes pela porta entreaberta, derretidos um sobre o outro, nesse dia 30 quente. Li no jornal que foi o dia mais quente em não lembro quantos anos. Sete? Eles não demoraram muito, Oliver me viu enquanto Nicolas anunciava seu fim, um pouco antes era ele que havia se contorcido em deleite. Ele voltou a olhar Nicolas e lhe dar atenção. Nicolas lhe beijou o pescoço e quis descansar no seu ombro. Eles acabaram cochilando, e quando acordaram havia comida na mesa.
Nicolas foi embora, Oliver deitou no quarto de hospedes ficou lendo, enquanto eu me ocupava no seu livro na luz da sala. Mais tarde me juntei a ele, conversamos muitos, ele chorou, mas eu não, embora quisesse. Oliver gosta de ser o único a chorar, ajuda-o a melhorar o humor. Segurando a minha mão ele adormeceu, com a outra eu me masturbei, dessa vez pensando em ti.
Acordei e havia dois bilhetes sobre a mesa. Resolvi ler primeiro o que surgiu misteriosamente pela porta junto da foto. Nada de mais, Oliver estava aqui com Romeu, na casa do Nicolas, e que Morgana chegava hoje. O outro, confirmou a minha dúvida, ele havia ido buscá-la. Passou pela minha cabeça de ter uma reunião familiar amanhã pela noite, você estaria pela casa e após os convidados partirem, depois de comerem algum prato e beber e muitas taças, nós nos perderiámos por toda casa numa noite de pervesões. E no fim me colocarias na cama, e beijarias meu sexo. E me verias pegar no sono afagando meus cabelos.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

carta de amor não escrita

pensei e repensei se enviaria a carta. Fiquei horas procurando o melhor papel que eu tinha, e a caneta mais bonita, talvez até um lápis de cor. Azul escuro em papel ocre.
Não importa, escrevi num tipo rasgado com a primeira esfereográfica que apareceu, qualquer uma
que falha em alguma metade de palavra. Não importa, escrevi e reli, e então era todo dado. Parecia um cachorrinho esperando por comida. Daqueles que usam de suas caras mansas para os sórdidos pedidos de carne.
Nauseado. O rosto estendido a espera, me entregando como um filhote faminto, contorcido de dor. Esperando de olhos fechados como se sol vermelho atravessasse as pálpebras. Esperando, sua resposta. Uma bofetada, o sangue entre os dentes em gengivas fracas e inflamadas, como meu rosto
inchado por socos, e rasgos com picotes por todas as partes. Nenhuma parte de mim escondida. Esperando sua mão desferir o golpe final. Que me faria cair no chão, sangrar o mundo, até nascer flores. Flores carmim. Vômito. Não me sinto bem, quero te bater, mas nem sei mais levantar. Nem sei o que significa fugir. Te espero que me recomponhas, cicatrize as feridas e me embale num sono, que mais tarde começa tudo de novo. Escrevo e você me sufoca com uma almofada colorida enquanto durmo.
Mas por algum motivo, meu rosto está ali esperando.
Tua carta não vem.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

dias longos

Deixou a casa. Seu cheiro perceptível no lençol não me faz deixar a cama, por todas as manhãs fico tanto tempo, pois não suporto, sem ti não há sossego, não há descanso o suficiente numa cama com seu. Não durmo. Acordo cedo, durmo tarde e me reviro a noite inteira, além daquela boa parcela da manhã, aquela parte do dia sempre improdutível, na qual nem tenho mais fome. Não tenho, e geladeira abusando de fartura: pães integrais, abacaxis cortados, morangos, torta de chocolate e cerejas. Não comi nada ainda. Logo vou, um dia inteiro sem nada passando pela garganta. Não falo, nem choro.
Resolvo, a solução é a lavagem rápida do lençol, troco com felicidade infantil o jogo de cama. Não sei. Não sei quando devo trocar de novo. Meu estômago finge ter poder sobre mim, e me envenena com uma dose de dor intolerante-ável. Jogo meu corpo contra o colchão embrulhado por limpos lençóis, só para me contorcer. Que tarde quente, implica que lasso se faz qualquer incômodo. Meu corpo suja suor na cama, o lençol tão novo. Não é amanhã que você vem. Não. Abro a geladeira, mas para vencer o a tarde quente. Essa carcaça velha e poeirenta não condiciona ar nenhum, sem contar o barulho interminável ecoando pela casa, só permito à geladeira tal ruído. O sol branqueia a tarde, deito na grama, na sombra, suando. Não sei fazer nada nesses dias sem você.
As nuvens do fim da tarde trazem todo pesar, barulhentas e nervosas gritam o que me prende a garganta. Tumulto, entro em casa junto do vento que balança todas as cortinas. Tiro lençol que persistia em ter seu cheiro do varal, mesmo limpo, mas não sei, a chuva pode lavar você ainda mais, já não racionalizo, por certo. Permanece assim um tanto solto, preso com um grampo ainda, que talvez nem resista ao vento. Se sujar, já dormimos tantas vezes em lençóis assim. Fome, os morangos já não estão bonitos. Como-os devagar, sinto uma fraqueza, calor, moleza, alguns frutos eu aperto porque acho tão lindo, escorre um líquido rubi, aperto contra o corpo, a mancha mais tarde se parecerá com sangue, outro tipo de líquido rubi, meu corpo nu, pois sempre me dispo quando não há ninguém vagando pela casa.
Vomito, não me desce o bem-estar sem você.