quinta-feira, 5 de maio de 2011

dormindo só

Deitou, as costas disformes no colchão macio, adormeceu depois de um tempo, ali parado, imóvel, com um vento frio invandindo pela fresta da janela. Pensou em colocar meias para não se resfriar, pensou em bolar um plano com lençóis para tapar as frestas, pensou até em se abarrotar com pesados cobertores. Nem se mecheu, pensou que aguardaria Julio César se deitar ao seu lado. Nunca havia chamado: Julio César. Entretanto, o nome veio comprimido porque chamava atenção, a tensão do seu desaparecimento. Ele sempre voltava a noite.
Fez frio a noite toda, e dormiu mal, os pés gelados, sem outra fonte de aquecimento. Um barulho alto vinha da sala, e o sol brilhava quente. Todas as frestas deixavam raios incólumes atravessar o quarto, aquela poeira iluminada. Julio César estave me chamando. Parecia abatido, no sol, fazendo-se quente na parte do piso ensolarado; meus pés gelavam, pisando pelo resto da casa. Peguei leite para nos servi, ele veio não muito contente, arrastado, lento, naquele movimento lindo de deformação dos ombros. E veio falar comigo. Falou antes de beber o leite, como se nem gostasse - ou nem quisesse, falou da noite que passou fora, dos lugares desconhecidos que visitou. Noite fria de perseguições, e amizades fugidias. Ele contou de uma briga, que saiu sem nem um arranhãozinho. Fugiu, pensei. Contou que havia se sujado bastante, mas que tomara banho antes de eu acordar. Então, a porta abriu, e não era ninguém, ouvi passos, e não era ninguém, senti alguém me tocar os cabelos, e Julio César havia desaparecido. E o panfletos com seu rosto deitavam espalhados pelo chão, que já estava quente, mesmo sem sol, com o vento. Algo cresceu em calor e decibéis, como um estouro. Um gato entre os pés, o barulho do banho.