domingo, 26 de junho de 2011

ser

Foi por uma busca de identidade.
Aquela pequena parcela de eu presente em pequenos momentos,
muito mais atrativa em outro idioma
para as pessoas que são de outro idioma. Sei que me afasto desse
pensamento em português, viro outro eu, outros. Isso já é certo.
O que não é certo é onde(no tempo) eu encontro
essa outra identidade conhecida
Se a felicidade vem
é por motivo de soltura e transparência,
risco.
Se há algum medo é do eu achar
que engana melhor, por aprender a gostar de algumas mentiras.
se o risco é um golpe
no peito, não há
engano, um eu medroso
mata outros possíveis.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

último dia de outono

Cheguei mais cedo. Sabia que você se atrasaria, sim, eu sabia, mas não pude evitar de querer chegar antes, conseguir fazer dessa espera todo o fim da tristeza, então desapareceriam todos aqueles pensamento sombrios sobre a sua fala apressada ao telefone, as palavras secas tecidas no email, o olhar desatento enquanto você come, e eu falando sem deixar transparecer o fio de gelado se entrelaçando na rede de meus pesamentos. Por vezes sórdidos. Hoje não. Eram claros como o céu sem nuvens, daquele azul de doer os olhos, os meus sensíveis a muita luz. É por isso que eu te espero na sombra, o seu atraso de poucos minutos. É o sistema de trânsito que lampeja, e me dou por convencido. Não há pressa debaixo da aroeira-mansa. Essa espera doce de esperança picante.
Sem sombra de dúvida, o ônibus. Meia hora, e há nuvens muito brancas, pouco densas e divertidas com seus formatos rarefeitos. Resolvo caminhar, ando em círculos para não me afastar demais, são círculos amplos. Acho que você não vem.
Procuro algo para tomar, faz um pouco de calor hoje, parece ser fora do comum, mas ao mesmo tempo isso é banal. Só não quero que não chova. Aqui sempre chove. Tento te ligar, isso vai afastar qualquer mau tempo de espera. Entre um tum e outro, um lá e outro - segundo a amiga musicista - a eternidade que faz a batida do coração entrar em descompasso, peito tão vibrante como cordas que gritam o seu nome, gritam um monte de coisas, a fantasia que eu costuro: o seu abraço. Ele não vem, não é? O celular me confirma, não há alguém do outro lado.
Silencioso. Meu sorriso renasce. Há coisas que não vibram, até mesmo o vermelho pode ser tão opaco que não atende ao desejo de ninguém, vermelho de sangue quebrado pelo asfalto, com seus pequenos cacos. Imagino seu celular inutilizável. Começo a tomar cerveja no bar do outro lado da rua, pelas grandes janelas de vidro posso te ver, e sei que estás para chegar, e já não culpo o péssimo planejamento dos transportes. No céu as nuvens já ocupam muito espaço, esse algodão celeste em forma de tudo. Água no estado mais lindo talvez. Me pergunto se nuvens são quentes e molhadas, tal qual seus beijos, nem sempre suaves, eles são mais adeptos à tempestades.
Acabo com duas, três gafarras, e o sol também se acaba. Está escurecendo.
Caminho pela rua. Está ventando forte, acho que sempre venta por aqui, tenho frio. Sempre sofro por não pensar no clima do dia inteiro, não saio com casacos quando deveria saber que a noite será fria, não levo guarda-chuva nos dias que ela é dada como certa. Pouco me importa o clima. Meu frio não é pela falta de um casaco fechado, não é por vestir a camiseta leve, um jeans claro. A neve desse inverno foi você quem trouxe.