quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Ganho Meu Dia

me acordas cedo, retiras lentamente a colcha de inverno, o frio inimigo desperta os pêlos dos braços, do torso e das pernas. me acordas cruel com a janela, o sol em riste lança ponta ardente sobre a pele que espalha e aquece. 
Sento na cama apertando os olhos forte pois é claro demais, tenho um pouco de frio, contudo tem sol deslizando calor com o carinho macio da tua mão nos meus braços, os teus já nas minhas costas e sua roupa contra meu peito nu. Te deténs por tempo de amor; me roubas um beijo do rosto; diz tchau com um sorriso onde o desejo velado se mostra permissível. 

sábado, 3 de setembro de 2011

Meses Longos

  Voltei a cuidar das plantas. No último sábado, fiquei a manhã inteira a espera do caminhão que entregaria a terra, cavei certo lugares onde achei que deveria colocar as novas sementes de flores recém adquiridas. Desisti das hortaliças, do tomate cereja, mas o pé de alecrim continua ali. Pedi a Marta por vasos, devem ficar prontos semana que vem, pedi dois bem grandes. Não tenho pressa em arrumar as coisas, e tudo ainda está um pouco revirado, mas não se preocupe, não deixo a bagunça adentrar a casa. A terra fica lá fora, junto dos sapatos, e dos utensílios, choveu bastante um dia, um lamaçal se formou, e achei que o melhor era desistir de tudo. Cuido do jardim sempre pelas manhãs, bem cedo quando acordo, não penso em desistir quando a terra está mais seca. Marta disse que viria me ajudar. Não sei o porquê, recebo ao telefone a voz de Marta todas as tardes. É bom, não reclamo. Tem dias que não falamos nada com nada. Oi, tá bem, tô e tu, tô também. Nos outros aparece um pouco de intimidade. Oi! faltam quatro vasos aqui, ah! aqui falta muito. Domingo vou aí, tá bem pode vir, eu vou, te espero. Apesar de não ser a sua, gosto de ouvir alguma voz ao telefone, às vezes me ponho a pensar que isso pode ser bem triste, ter que ouvir Marta todos os dias. Foi por isso que ontem não atendi ao telefone, tocou duas vezes até, fiquei pensando que poderia ter sido outra pessoa que não Marta. Você.
  Emagreci. Meu corpo não conhece nenhuma proteção inconsciente de armazenar gordura, como pouco, e os quilos se vão. Pareço estar doente, as maçãs expostas no rosto como se eu sofresse de anorexia. No entanto, não há necessidade de alarde, já voltei a comer, um dieta rica em gorduras, e tenho roubado muitas tangerinas do vizinho. Faz tempo que o Ricardo não aparece, ele não sabe do prazer que o inverno trás para cá. Tentei retribuir limpando as folhas do jardim, enquanto meu cesto se enchia de frutas. Havia calêndulas no jardim dele, foi aí que eu decidi transformar as alfaces em adubos para as flores que ainda vão crescer em nossa casa. Quando você chegar, quando for quase primavera, a casa cheia de flores. Imagino abelhas vindo nos visitar, e Marta também, que se sentirá orgulhosa dos vasos. Nicolas me ajuda na dieta de engorda. Faz comida, faz a mesa, faz meu prato. Senta ao lado para comer comigo, se estou só não sei comer. Desaprendi o que toda mãe ensina para as crianças bem pequenas, pegar o garfo e fazer a viagem interplanetária do avião que do prato alça voo até a boca. É a sua falta. Desaprendo as coisas. Somente ao seu lado que como de verdade, embora Nicolas faça eu comer com sua insistência e paciência. É bom, não reclamo. Perdi a aparência de doente. Para fazer a digestão, ele lê para mim, eu me perco na leitura imaginando um remédio ainda melhor para tudo isso.
  Houve uma festa esses dias. Foi a primeira vez que saí de casa desde a sua partida. Nicolas me levou de carro, e Marta também estava lá. Bebi bastante, drinks de tequila até o amanhecer. No sofá da casa da Valéria, eu dormi. O sofá era confortável por demais, outros dormiram em colchões espalhados pela sala. Nicolas dormiu ao meu lado. Como de costume acordei muito cedo e continuei ali no sofá, sem forças para me levantar, talvez para pegar um copo de água na cozinha. Acordei Nicolas, enquanto me ajeitava para sentar, ele voltou a dormir sob os meu afagos em sua cabeça. Parecia tranquilo, não mais a expressão nervosa e sofrida que teve durante boa parte da festa. Choramos juntos no porão, o quarto proibido de festa foi cedido por Valéria para Nicolas chorar em paz. Oliver se juntou a nós via telefone e perguntou de você, lembro que subi para deixar ele conversando com Nicolas sozinhos, mas tinha a desculpa de ter mais bebida em mãos. Algumas pessoas me perguntaram sobre você, não sabia o que responder. Ficou em casa. Estava aqui até agora, você não viu? Não sei. Desci as escadas do porão, Marta foi comigo, e Nicolas desembestou a falar sobre astrologia, comentando muito alegre da influência que Netuno traria para ele e Oliver. Adormeci, enquanto ele e Marta entravam em detalhes esotéricos de certos quadrantes, elementos e casas. Você entrando pela porta da frente, roubando as flores do jardim para me agradar ao avesso, com um sorriso faceiro no rosto, sujando de terra o quarto limpo. Sujando o meu corpo. Eu volto para casa e não há a sua sujeira, nem rastro dela. Quase sinto teu cheiro no guarda-roupa. Não sei. Sinto que o álcool impregna toda casa, mas talvez seja eu, que ainda sofro de dores de cabeça, enjoo e falta de água. Faz frio também. As arestas precisam urgente serem fechadas, tento empreender essa jornada, mas falho. Sinto fome. Que estranho, estou com fome, e cozinho. Quero comer as alfaces que enterrei, mas estão todas podres. Não gosto da minha comida, mas como, porque preciso de batatas. Ainda bem que Nicolas vem sempre aqui, deixa coisas e me cuida. Termino a louça, disco um número no telefone. Sua cabeça dói, sim e a sua?,  dói também, quer tomar um chá?, quero, você vem aqui?, vou, levo alguma erva?, pode trazer capim-limão, então eu levo, isso, traz e me ajuda com as plantas.