sexta-feira, 28 de outubro de 2011

#5


Não vejo as estrelas da noite. Para falar a verdade nem me lembro, até da lua esqueço, nova que se esconde. Logo cresce, brilha, e esmorece até que a gente esquece dela de novo, esquece que a maré se move por ela, mas a gente não se move da maré, sempre deixo ela molhar os pés. A maré do dia de hoje, de praia e sol. Peguei em casa mesmo, sem roupas, o sol que entra pela janela já bem cedo, antes das sete. Ele me desperta, e hoje estava bem quente, queimando o chão, as roupas, a minha pele. Esse calor espanta algo que nem quero por perto, mas eu sei que me ronda, e a ti também, como o giro tumultuoso de uma ciranda que rompe e espirala, seu rosto só de relance diante dos outros, que comem as mãos e fundem os punhos. Mas o sol me protege desses sonhos loucos, suspende o tormento. Calmaria e bonança.

é nesse abraço que o terror colossal me abandona. É o modo que tua mão me segura naquele preciso momento que, só por costume, eu soltaria. O segundo a mais, que dura no teu calor, que faz das noites sem lua menos escuras.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

#4

   Enquanto acontecia um papo repetitivo e as alterações nos nervos já se faziam presentes em alguns entusiastas de suas próprias ideias, ela percorreu o círculo disforme das pessoas, não havia tu. Discretamente ela partiu por uma calma investigação dos cômodos da casa através de cada janela, todos muito escuros, e suas vidraças fechadas. Colava a cara no vidro inutilmente para tentar espiar por algo, em um ou outro quarto distinguiu a cama, ou uma poltrona. Na parte de trás da casa, uma janela estava entreaberta, teve a impressão de ver uma fina fumaça se propagar pelo ar frio. Fumaça ou o ar úmido e quente quando exalado do corpo a cada expiração. Talvez tu estiveras lá, abandonado o cigarro no cinzeiro perto à janela, queimando esquecido, ou quem sabe ainda estavas, abandonando aquela conversa que ela também. Seguindo o costume o quarto estava escuro, porém as formas das coisas eram discerníveis, e até o teu contorno todo torto jogado numas almofadas no chão. O que queimava na janela era incenso, na sua boca o cigarro. No canto e só, você fuma em baixa luz. Tu não percebes que ela se apoia no parapeito e te olha, como se gruda à parede, funde-se no concreto, e atravessa o espesso ar embaçado do quarto, agora com a certeza que é fumaça. O único o qual o fumo foi permitido. Ela deita no teu corpo. Teu cigarro vai à boca, a tua, a dela. Uma mão desliza por baixo, uma outra se perde entre fios de cabelo, uma inerte, e aquela que guia o cigarro. É ela que tem a prazer da última tragada. Aqui fora faz frio, no entanto não é de inveja que aqueço meu corpo, nem preciso do calor do ciúmes. 
     Embora, que mesmo ao longe, eu pudesse escutar os gritos raivosos da discussão revisitada, eu prestava muita atenção no desenrolar de tecidos que os corpos teu e dela expunham aos poucos a mim. Não sei exatamente explicitar a diferença de luz do quarto e do lado de fora na parte de trás da casa. Ambos escuros, assim talvez me vissem, não importava. O teu corpo se rendendo a boca dela, dor, prazer e espasmos. Percebo que longe daqui, alguns caem na piscina, não sei se voluntariamente, ou se por vontade de piada alheia. Caminho até lá, alguns pelados por vontade própria na piscina. Amanhã vou cuidar de resfriados e não de bebedeira. Agora estavam todos dispersos, a discussão que começou agregadora terminou por dissipar todos pela casa. Ana chora num canto. Descubro, por ter seguido e espionado os passos dela, o caminho  que chegava até ti no quarto, e  por não querer fazer o jogo de te observar. Encontrei um choro por acaso, ofereço o que tenho, um ombro, um colo. Todos sabem porque Ana chora. Falou com certo pesar que gostaria de ser como as pessoas da piscina, a felicidade nua e fria. De chofre, para minha surpresa, chacoalhou a tristeza e contou que gostaria de lavar o rosto no banheiro. Avisei que havia água na piscina, portanto não há necessidade do banheiro, a não ser se houver receio do cloro. Ana foi a até a piscina, e se abaixou. Gustavo a convidou para entrar. Foi então que ela surgiu pelo caminho obscuro, entre a casa e o muro, pelo qual tinha partido, quando antes eu a havia seguido, mas és tu que sai spela porta da frente, segura meu braço, e ela sorri no momento em que passa por nós. Pedes um cigarro, ofereço o último, mas divides comigo. Acendes o fogo, eu trago  brasa.