domingo, 13 de novembro de 2011

ying-yang

Cai fora que a porta tá aberta; eu não te quero mais por aqui, tua benção, tua fortuna, não há mais o direito da partilha do pão, da alma; dê adeus ao ágape. Clamor, estrondos, e curvo as paredes se for necessário. Sei receitas de venenos, uns dois ou três, que causam a morte ou, ainda pior, a paralisia. Tuas pernas remotas paradas frente a porta que não te deixa entrar. Vais ficar aí, vendo todos os que entram. Então todo esse fogo que me consome será absorvido, tornar-te-ás meu talismã sugador, invejoso, ciumento, símbolo de uma paixão vadia, e terás fogos nas mãos, contudo o frio vai pertencer ao teu corpo, morto, livre de qualquer delírio febril, compadre.
Caia dentro que abriram a janela. Não quero mais ver você perder os cabelos ao vento com as unhas roxas de frio. Venha que aqui tem lã, e fazemos grossos tapetes, deitamos no chão para, confortáveis, desafiar a noite até raiar o dia, e para fome fazemos banquetes. Suas frutas preferidas temos para lhe dar. Às vezes trazem flores para o dia ser mais alegre. Há rituais para lua, e nos banhamos quando chove. Pode pular, que eu lhe dou a mão, compadre.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"O que eu defino pela sua teoria?" "A realidade, talvez."

Que júbilo, dissimulado em sonhos, só posso pensar em pesadelo. Sonho essa coisa de leveza e alívio, saciedade sem preenchimento, pois o peito é vazio. Mesmo no colo, com os braços envoltos, pois teu corpo colado é maestro em orquestrar a sensação de segurança. Mas, como as crianças que sabem de segredos, eu sei que a seguridade é só para deixar passar algo no vazio dos corpos, ou pelos menos no meu. É oco mas não é duro; o sonho, o pesadelo são sempre macios, confortáveis, envolventes e é justamente aí que residem suas forças, e que eles se mostram assustadores. 
Quando percorre esse universo oco do peito, a mim mutila, destroça, pulveriza qualquer resto de carne. A doce passagem que me deixa estarrecido no chão, pois você, novo rei, perturba a ordem do sono. Não sei mais a diferença, ainda que eu consiga dormir em paz. 
Que júbilo, que dor.

domingo, 6 de novembro de 2011

comprar margarina

pairo, estou num pulo
de bailarina, passeio pluma, firme, finca
treme terra, perna e algodão
flaneia pela pele suja, besta, 
gasta, a felicidade rasga
as finadas cordas sem acordes
tecidos rubros encharcados fiapo
por fiapo
fina, venhas
tens me sido tão avessa