sábado, 27 de julho de 2013

estação longa

   Acordei, enrolei-me no lençol e fui até o jardim, o portão aberto. Não consegui fechar, depois que o teu carro passou por ali, não consegui fechar, não quis me fechar de ti. Vento matinal tão frio que o lençol nem protege, mas me aqueço de pensamento em ti. Continuo com frio, seria meu pensamento trama tão fina quanto os fios entrelaçados, soltos do lençol identificado por padrões de figuras de flores como se fosse a própria felicidade que esquenta. Rosas rosinhas, rosa bebê, bem clarinho bem fininho, o rosa da tua face depois de um pouco de sol. Envolvo-me mas não é tão quente quanto o poder de reter calor da tua pele.
  O telefone começou o seu usual soar, nunca tem hora, embora não acabe um único dia que ele não toque. Deixo a porta aberta, chego bem perto e não atendo. Pode ser você, e bem, não queria ter falar que eu estou com frio, ou que eu não tenho comido direito, e que emagreci um pouquinho a mais do normal. Deixo tocar, escuto um toque após o outro. Sei que às vezes não é você, estou a evitar visitas. Acontece que nem toda visita anuncia sua chegada. Oliver aparece sempre de surpresa. Teve um dia que ele chegou e nem falou nada, deitou na cama e acordou algumas horas depois. Tomou banho, e me deu um abraço cheiroso. Quando está frio, ele encosta a porta, mas não a fecha, ele sabe que a casa é minha. E tua.
  Durmo bem, as manhãs acordam embaçadas, a cama parece maior a cada dia, mar de tecido revoltoso expandindo. Levanto, visitas chegam logo no café, alguma abelha se perde para comer alguma coisa comigo. Divido uma colher de mel e elas nunca me aborrecem.
   Saio sempre, dou preferência pelas tardes. Um pouco depois de almoçar, estratégia de marcar horário, pois como sempre que dá na telha. Saio e deixo tudo aberto, deixo o seu guarda-roupa aberto, ainda restam algumas coisas nele. Saio com um de seus casacos que não foram contigo. Aquele meio velho e rasgado no braço direito.Não há um só dia sequer que passa sem eu estar naquela rua. Os ipês estão floridos. Estou colhendo as pétalas das roseiras, guardo em potes de vidro, comprei um bocado deles. Li em algum lugar que as pétalas de rosa não perdem a cor, secam, mas não perdem a cor. Aprisionada a cor, tal qual eu em casa. Faz uns dias que não chove, mas não faz calor. Sempre achei que fosse mais quente essa época, mas não é como se eu prestasse muita atenção ao clima de cada mês a cada ano, apenas sei diferenciar os dias que divides a cama comigo daqueles que você não está aqui, e eu estou.
  A tarde outra visita, um bichano vem ao jardim desdenhar da minha falta. Vem, recosta-se em mim, pede alguns mimos, e vai embora. Eu o alimento na verdade, compro ração, e ele sempre volta. Usurpador de araque. Ele me arranha, mas essa é a menor das minha dores. Tô com um risco vermelho longo no braço, tenho vontade que tu vejas, quero te deixar com ciúmes igual quando acordo no meio da noite e solto um grito. Tem dias que é abafado, tosco e fraco, como meu corpo, coisa desfacelada que definha a cada noite que eu grito, e cada grito é mais forte, a cada noite eu ganho voz, porque tu não estas aqui, porque eu cresço na lonjura. Minha voz não te alcança, rouca de tanta gritaria louca de ciúmes do seu caminho por essas cidades sem mim.
  Começou a chover. Chove por dias a fio, por dias de frio. Alguém me falou que era sempre assim, que caem pingos incansáveis pelos tetos das casas todas, para resfriar todo o ar, todos nós. Acontece a mobilização de fechar janelas, desencano e as deixo abertas. Não reclamo sabe, meus pés gelam mesmo nas noites de verão, porém às vezes Oliver se enrosca e me aquece de baixo dos lençós. Quando você está, eu ponho meias.
  Oliver está aqui de novo. Está deitado. Eu estou cozinhando. Carne. Carne vermelha. Paro tudo, caminho e estou fechando o portão, e quero jogar a comida fora, e lavo demais as mãos, gordura e sangue deixando a mão cada vez mais suja, sabão deixando cada vez mais morta, morte deixando cada vez mais velha, as mãos. Velhas. Secas, como a minha garganta. Oliver está de pé, estou nos seus braços. Eu me cortei, ele pega soro na geladeira, lava o corte. Ele cuida dos cortes na minha mão, arde muito, e me contorço, e não aguento, choro aos berros. Grito seu nome, e nada, nada de resposta, nada responde ao seu nome. Oliver faz curativos demoradamente, estou ainda aos prantos, mas já abaixaram, sinto a calmaria chegando. O silêncio feito de barulhos dos insetos. Uma cigarra canta. Oliver me abraça, e eu saio de casa, volto ao hábito de fumar que você tanto detesta. Ouço o telefone tocar. Oliver atende, mas não escuto, não quero saber quem é. Fumo um atrás do outro, fico com acessos de tosse, enquanto a comida é finalizada. Oliver deixa um prato para mim na cozinha, fuma um cigarro comigo, pede companhia para comer. Ele abre um vinho, eu durmo sob efeito da embriaguez. Quando acordo, estou só, Oliver deixou o portão aberto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário