sábado, 29 de dezembro de 2012

#6

  Não tenho nada a dizer a ti, no teu parapeito estreito da dor não quero cansar falando, se nem sei se as marcas da pele vêm de hoje, de quando vêm as feridas que se tornam manchas escuras de pus, sangue, saliva, ou se traumas impedem tocares em meu plexo. Solitários estalos na coluna tortuoso sem o plerótico poder das tuas mãos, afastadas, costas frias. O meu corpo errante, sem cuidado, pobre, tosco, fétido, incrustado por crostas grossas de acumulo de pó e gordura e lama foi  tomado e aprisionado, ao seu lado, em local seguro, fresco e limpo, e aos poucos lavagens tiraram todo acumulo de história que meu corpo sofreu. Um corpo novo sem amaciante, sem vestígios das roupas tépidas de noites regadas de bebida, suor e areia, pés na terra, na chuva com cabelos ensebados. Tiraram a memória do meu corpo com xampu. Tocos as pontas de cabelos que me caem indesejados na testa e já não sei onde estou ou como eu vim parar aqui, por que este chão é confortavelmente frio. Pode ser a cor, tu me disseste quando eu cheguei, porém eu só lembrarei disso quando eu te tocar os cabelos novamente. Quando me questionas sobre as cicatrizes do joelho do ombro, não tenho nada a dizer a ti.
  Engendra-se um relacionamento de convívio, os outros nos encontram nas manhãs de banho de sol, não demais por causa das manchas. Os banhos higiênicos são dados separadamente. Há um rapaz especial que não deixa minha barba crescer, perco assim toda minha memória recente, bem, quase toda, outro dia ele esqueceu esse fio aqui debaixo do queixo que me lembrou que acordei contigo segurando os meus dedos indicador e médio, algumas outras coisas eu lembro ao tocar nos teus cabelos. E ontem mesmo eu lembrei que você me ensinou aquele truque do remédio atrás do dente, nos deixa sentir mais animados, ou raivosos, não sei muito a diferença. À noite achamos uma mancha arroxeada perto do cotovelo, foste tu, ao tocarmos, lembramos, e assim a promessa de tomar remédios, porque dói um pouco lembrar que eu te bati.
  Nocivos, tuas perguntas não são inocentes, queres me fazer lembrar, aos poucos, meu corpo por contágio dobra por tuas indagações danosas, há maldade, crueldade, violência na cama, no parque, nas escadas, na balaustrada. A cada noite as manchas crescem. A cada noite eu entendo melhor, que o teu veneno é mesmo que o meu, a minha queda foi ao lado da tua. Minha cama é ao lado da tua.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

acontece que eu conheço uma magia


O pensamento bélico preparado para te atacar parou justo na pressão fina e pungente, logo um corte tão fino, não sangra, coagula, seca e arde, arde tanto, enquanto um peso naufraga peito adentro. Minha fala malvada e perigosa me envenena, se espalha no meu corpo, percorre o meu dedão, porém em mim tem efeito de remédio, pois o veneno fui eu que elaborei, e ainda por cima me detive no trabalho de aprender a sublimar esse visgo imperfeito, e o teu infortúnio será vapor exalado de meu suor, e, derradeiro, transformará o límpido azul do céu em tempestade densa, negra, fervente. Mesmo com toda força, não vou te chover em pedra, e por puro poder das palavras, não anteciparás meu novo ataque, não terás proteção. Besta, lerda, flácida tua tez será nada tenaz, aos poucos derreterá, fluirá aos esgotos, e vais morrer aos poucos naquilo que eu proferi, no que eu falo quando eu falo de desgosto. Morreu no meu dom da profecia, falarei diante teu túmulo.

E tenho aqui, o dom da clarividência, já fui tolo, por ti e por outros e outras coisas. Na minha fronde de veludo atesto tua fronde franzida na dúvida fatal, por que a morte me nina em fronha de veludo. Vou transformar teu contorno azul da noite e rasgar teu travesseiro guardado entre as pernas, penas esparsas, pigarro, trevas. É minha guerra. Tu, sufoco transfigura pedra.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Mordi a língua

Eu não sei precisar o quão assustador foi - bastante? - porque para mim foi.  Paixão tem um quê de assustador. Hoje é só pesadelo, embora eu tenho acordado.
fui um tanto indelicado. nada comparado de como eu posso ser agora, aprendi crueldades desde então. Não é que eu não queira ser seu amigo, mas não quero não. mas quando eu escrevi eu realmente não sabia como eu iria reagir se eu te, não quero reações negativas. E eu as tive. Não quero que haja climão, e como há. Ou que a gente se evite. E eu te evito.
Exagerei na tragédia das dores do amor. Mentira.
Não estou sofrendo tanto assim, mentira, sofria sim, e ontem foi um dia bem feliz. O dia tinha sido feliz mesmo.
Amores vem e vão.  
e vão, e vão, e vão, e vão. 
Da próxima vez, espero ter mais sorte, espero mesmo, e que você tenha também. E você teve e foi o meu hasard.
tirar você completamente da minha vida, eu não quis, mas a vida exige, não me iluda que não.
mas sei lá, isso sou eu, e eu acho que eu sou meio louco. e procuro a verdade no falso.

Eu não sei de você. Pelos outros, eu sempre sei um pouco.

tua fala imaginada por mim sobre a visita que não há

    Eu passei um pouco de café, forte e sem açúcar, mas na verdade eu não consigo lembrar se era assim que tu gostavas. Houve recusa, portanto ofereci algo gelado, e suspeitei não ser o melhor, porém mesmo assim dei a opção ululante do álcool. Aceitaste, e começamos nosso fim de tarde com um vinho. Tu passaste por alguns cômodos para eu mostrar como é a casa, e mostrar coisas que achava que tu gostarias de ver, uns livros, uns livros de figuras, uns livros artesanais de fotos minhas e outros feitos por um de nossos amigos. Eu atendi um telefonema, e vi que tu conversavas com a orquídea, do mesmo modo que tu conversavas com o cachorro da Taíse, firme e delicado, como quem é superior e ao mesmo tempo não tem tal prepotência, é quase paterno, e é infantil. Isso me distraiu do telefone e ficaram do outro lado. Alou alou aloooooou, tim não derruba minha ligação. Ra-rrá, eu ri e tu me olhaste. E não te encarei. Não havia o porquê, eu até fui para à cozinha. E aos poucos bebemos e compartilhamos coisas boas. Tu falaste sobre coisas que haviam perturbado a ambos, e parecias amargo, sempre achei que tu não envelhecerias amargo, enquanto a Taíse sempre disse que sim, que envelhecerias antes do tempo e que serias rabugento. Te escutar foi resgatar algo do meu passado, algo que parecia distante, como uma gaveta no quarto que a gente não sabe a forma que ela tem por dentro, e eu me surpreendi com a tua alegoria dos espinhos que eu cultivava fora de casa, enquanto por dentro a orquídea florescia solitária. Expuseste a tua dúvida sobre aquilo que muda na gente, ou o que não muda em cada um, o que aparenta ser uma contradição nefasta da imobilidade eterna na duração. Que a minha casa era o mesmo velho eu. Que com teu eterno medo, não andarias no meu jardim. Em tom de confissão me contaste sobre muito do que aprendeste sobre flores durante aqueles meses nos quais sair de casa era impossível, mas que foi por uma vontade de cultivo que saíste, e saíste feliz.

   Adentramos a noite, e li para ti o caderno da Taíse, aquele misterioso que ela sempre andava a escrever e carregava para todos os lados e não deixava que o tocassem. Era o grande rascunho do livro que ela lançou. Tu não quisera ler, então me ofereci a ler contigo, e mais tarde tu choravas, mesmo com toda paciência e esforços que fizemos para não trazer os espinhos para dentro. Eu te toquei, sem perceber que eu tinha meus próprios espinhos. Pois apareceu essa mancha densa e de incansável expansão na sua camisa, brotou na altura do peito. O sangue, mais tarde, já havia sujado o tapete. Tu adormeceste, e eu fui me isolar no meu quarto. Olhei algumas fotos tuas na internet, e finalmente escutei o barulho do porta.
   Os espinhos estavam dentro de casa, a orquídea intacta, a porta fechada e manchada de sangue, o tapete de sangue, os espinhos de sangue, no caderno da Taíse manchado. O vento assoviando por frestas da casa. Nada é tão bem protegido, e nada de ti é presente, a não ser o resquício viscoso. E eu não sabia se retirava os espinhos de casa, eu não sabia se eu tirava os espinhos de mim. Não sabia se os espinhos eram meus ou teus. Ou se o meu corpo era a minha casa, ou se o teu sangue já pertencia a mim. Eu chorei a minha dúvida, e conforme eu me acalmava, o vento aos poucos ia perdendo força. Ele chegou em casa e me confortou. Nem notou a sujeira hemoderivada, nem os espinhos. Ao me dar por conta que o vento não sussurrava dentro de casa, senti que o sopro de vida que te carrega também havia cessado. No dia seguinte, levei ao túmulo de Taíse a orquídea, levei o pedido de que meus espinhos não fossem amargos.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Aproveite a escrita no limbo

A memória dos sonhos é um exercício. Acompanha, lógico, outros tipos de esforços, e há algo bem mais desafiador nisso tudo. Quase todas as noite eu acordo no meio do sonho e sei que estou sonhando, bom às vezes eu demoro para assimilar, mas geralmente eu sei.  Com uma vontade imensa de se virar e voltar a dormir, eu tento repassar na cabeça aquelas imagens para poder lembrar mais tarde, quando eu estiver acordado, quando eu estiver fora do limbo da minha cama e do outro mundo. Erro grave. Eu deveria pegar o bloco de notas e o lápis que sempre deixo ao alcance das mãos e escrever. O sono quase sempre vence. Uso algumas desculpas, contudose sabe muito bem que o discurso mea culpa não justifica nada. Algumas manhãs iluminadas de sol lindo e radiante e céu azul, eu levanto e lembro, nunca tudo, mas alguma parte, alguma imagem e parte da situação. Desses é mais ou menos assim, coreografia num gramado um pouco acima da estrada estadual; o centro de floripa é ao mesmo tempo a matrix e o mundo real; num calabouço há uma gaiola gigante enferrujada, escada em espiral seguindo a parede, vermelho terroso e preto; metrô, aeroporto parecido com o metrô, carrinho de montanha-russa dentro do metrô (o carro não para e cai num abismo), metrô com tal pessoa, metrô com xis pessoa; video de gêmeas fantasiadas de smurfs. Outro permanecem límpidos: Britney-Diabo; as ruas imaginárias do centro de floripa, os morros imaginários de porto alegre, a ufsc imaginária; a gravação do filme do Godard que ao mesmo tempo é o filme, um plano-sequência dentro de um carro que percorre uma rua, enquanto casa rurais do estados unidos e barns são implodidos (imagina se o plano dá errado). Há os constrangedores e há aquelas anotações que eu leio e não encontro resquício algum da imagem do sonho. A escrita não acompanha o sonho; é quase como me esquecer dos sonhos, da escrita.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

perdu

     Me perdi pensando numas fotos suas. Achei que eu também estava em Paris e achei que tu ainda estivesses por lá, e que em muito breve iriamos nos encontrar au parc de belleville, e eu torcia de modo brando que tu viesses com a mesma camisa que usastes na foto, e eu sorria sonhando essa foto e essa camisa que eu te dei de natal. Achei mesmo que tu virias, quando pensava que tu estarias em algum banco sentado de forma preguiçosa, com uma careta no rosto exclamando chistoso, quanto sol que tem o dia, mas não, deparei com uma praia nublada da costa da Virginia, você de sunga e um branco de doer os olhos. Saí dessa confusão de Paris, e me dei conta que meu quarto não é nenhum lugar além do meu quarto, embora mesmo assim ele guarde boa parte da costa da Virgínia nessa caixa de sapato quase tão velha quanto as fotos, a caixa de um all star já totalmente gasto. Você não costuma guardar velhos sapatos. De que adianta se eles não lembram os lugares que você passou, e foram tantos. Nesse meu amor louco imprimi todas suas fotos, um viva às promoções das compras coletivas. Eu também acho que eu perdi algumas fotos, embora não faça falta na sua vida. Coleto tudo apesar dessa perda. Bem no fundo eu não me engano. Quanto mais te perco, mais eu ganho.

quarta-feira, 28 de março de 2012

resposta inacabada.

Me dilacera o peito saber notícias tuas, sempre bem vindas, apesar do infortúnio, surpresas amargas que surgem de onde a gente menos espera, ou azedas, minha irmã sempre se confunde, não sabe distinguir azedo de amargo, acetto de amaro. Mas as deixe lado, crie com elas um pacto de paz, nada de borrifar acidez azeda nas feridas, sei que sabes disso. Com a pele aberta desse modo pensamos ser bem menos fortes do que somos. Como essas feridas nos expõem, ao ridículo, ao inútil, à bobagem da falta de sentido.

23 do 10 do 11

tecendo tramas

Tu que és torpe. Tu que chegastes e florecestes, essa flor e um sorriso. Vais sofrer quando o verão chegar. Sei que o inverno foi longo em ti, que o final se prolongou e que tua frondosa beleza se congelou nessas flores tardias da primavera. Mas eu tenho o saber (bonito), teu deflorar vai ser amargo, vai ser essa coisa ignóbil que tu és, essa flor murcha, de pele rasgada, pétalas frágeis que eu cudei veemente. Eu conheço o teu jardim, mais do que tu gostarias, sei até onde afundam algumas das tuas raízes. Detenho sem saberes um pedaço do teu destino.
Eu que sou um tolo. Eu que sei da existência do espinho e toco como se estivesse desavisado. Ou como uma bomba diante de meus olhos que eu recuso a reconhecer, então explode. E eu me despedaço e sangro, pois sou de ferro, sagro vermelho, igual teus machucados nessa flor de rosto. Mas eu tenho uma arma, uma chama que eu sei brandir, e de ferro partido derreto e me moldo novamente. Sei ser lobo, não seco no outono. Atravesso sem muitos esforços os invernos, a minha comida é fria.

sábado, 17 de março de 2012

trama lassa


Lembra como se ainda sentisse a mão firme envolvendo a nuca, a forma de segurar gatinhos, embora sem ser gentil o suficiente. Os vergões e roxos o acompanharam por dias, marcas impressas no corpo que custam a sair do pescoço. O destino de ter entalada na garganta a humilhação que impera no seu corpo, serventia diária  de posições decoradas. Primeiro assim, depois tu forças a troca, ele planeja fuga, pois sabe que te excita. E bates, sente que poderia perder a face na tua mão, desfigurada escultura. Logo paras, vais embora, não retornas, por dias as marcas diminuem até sumir. Ainda guarda uma leve escoriação perto da clavícula, pouco acima do coração. É bem sabido que a volta não se sucederá. Planeja a vingança em uma noite, na outra esquece, cozinha batatas e parece tudo bem. Pelas manhãs faz o difícil caminho até a vinícola, há esse trecho pedregoso demais na estiagem, e se chove é só lama, o pé afunda onde encontra sempre as pedras pontiagudas, bacantes, amigas que saúdam o sangue dos corte no pé. Está estampado em seu semblante que o ardil  o acompanha de mãos dadas, e na outra simula o horror com o cacho de uva, uma a uma o esmagamento viril contra o peito, sem se deixar levar pelos insetos atraídos, o líquido que escorre na mão e no peito também expurga, ou uma abelha que pousa no ombro, desejo de carregar ali a marca fúnebre da mais nova rainha, jaz a ferida que incha como o desejo. O retorno, eis que tu surges inesperado, heróico, levas o corpo dali, sem medo de botares a mão na vermelhidão do túmulo real, competes com força e aumenta a dor, o tens firme nos braços  e ele se debate como há muito tempo o faz, desde antes de partires. Calmo retornas para a casa, tranquilo, pois se igualas na força de causar as mais belas (segundo ele) marcas vermelhas é porque sabes que teu mel venenoso é anterior, há tempos deteriora e seca o pobre corpo que não encontra conforto senão no teu voo carnal diabólico. Se entras em casa e ainda sujo o deitas no sofá é para demostrar com os mais variados gestos que, além de se equiparares em força e superares o veneno das doces abelhas, não precisas da morte, apesar de lhe aplicar sua pulsão. Ferrão vital que ainda fará o corpo deitado sofrer todas as sórdidas pinturas da tua aquarela. Então lavas a tinta, a uva, o sangue. Deitado na cama descoberto de tecidos, ele já não fica sem dormir. A trama de vingança se desfez.  Respira como se fosse criança.


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

visita

Veio me agraciar com uma visita de flores, não costumo recebê-las, mesmo assim gosto, gosto bastante, gosto mesmo é de você aqui, com flores ou sem. Flores é um agrado, não te amo mais por isso, porém meu coração pula melhor. Então, aproveitei a confluência de fatos, é que eu havia ido ao mercado na intenção de comprar pêssegos, pêras e pasta de dente, e acabei por comprar, sem muita vontade, só para ter mesmo - um dia bate essa de desejos insistêntes e talvez acalme a vida - uma lata de coca-cola, que sempre mata a fissura. No momento pareceu muito lógico comprar uma garrafa rum. Coca rum. Fez sentindo, então ficou essa garrafa guardada de rum, lacrada, intócavel. Coloquei ela no congelador quando você entrou e se enroscou com o gato, ele gosta de ti. Gosta mesmo. Eu fui terminar essas tarefas de casa, tirar roupa do varal, porque tem mais lavando, e roupa suja e suja, e limpa e envelhece. Você alí com o gato no chão se contorcendo, brincando de ser gato também, de ser isso que você já é. Quando acabei você me esnobou pela sacada, você lá e o gato no sofá mexendo o rabo como se me chamasse. Peguei essas torradas para forrar o estômago de alguma coisa, levei duas num prato para ti, mas tu nem tocou, ficou lá, olhando o céu, às vezes eu, às vezes parecia que se perdia em si. Foi só aí que eu fui na sacada e tive a ideia de como retribuir esse agrado de flores. Comi suas torradas com ar de deboche, como um gatuno que se gaba de meus próprios truques. Recolhi essas folhas de hortelã que cresce no meu vaso longo de hortaliças. Um pouco de limão, açúcar, água com gás e essa garrafa velha rum. Rum sem coca. Mas talvez o velho seja eu, com minhas garrafas de água com gás. Levo teu copo. Você demora, mas pega. Esboço algo que aconteceu hoje, falo um pouco dessas pessoas que você também conhece. Aos poucos você bebe tudo. Daqui a pouco é tarde e eu vou ter que dormir. Eu sento no sofá e você se encosta, como se fosse um gato. Com uns gestos que já sei há muito, pede carinho. Não ronronas, mas sei que gostas. Sei que logo irás embora.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

cantares

   A essa altura, fadado por esperar qualquer notícia sua, meu desejo cansa. Fadiga boa, como o calor das tarde sentadas na varanda, onde a brisa alcança o rosto, nada além de observar o movimento e esperar o tempo passar. Contando as cores de carros, a brincadeira que era mais divertida na infância, hoje é assim, preto prata prata branco preto, uns rápido, outros tranquilos, um ou outro barulhento, como as cigarras cortejando com canto. 
   Que o verão sempre perturbe a paz, e o sol inche, inflamado o desejo com o calor reprotudor do canto ao pé do ouvido, insone na cama. Madrugada e me resta o último cigarro, guardo até não aguentar. Mais uma espera se agrega. Esperar o momento certo do último cigarro. Não é a toa que as tardes das esperas se prolongam na noite, e há esse germe, que brota e brota e germina no calor fértil, como o suor incessante, mas sem regulagem ou controle, só subir, com a vontade de sair, florescender a ramagem, abrigar todos insetos, os de vida curta ou longa. 
   Não sei se todos atravessam o inverno. Se as cigarras morrem no outono, ou se procuram abrigo nos braços amigos das formigas, aí então é canto underground, God Save the Queen, a boemia em túneis. Mas talvez as cordas endureçam, sem canto ou viola, só algumas as notas flutuates de uma flauta, tocada por dedos rígidos de frio. Não sei, espero um cigarra contar para mim, sei que virá antes do seu canto. Se não for nesse aguardo no próximo verão, que será como esse regado a espera, cerveja gelada, insetos reprodutores e jardim com alto mato. São os últimos goles da cerveja, é automático, acendo meu último cigarro, cigarra canta.