sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

visita

Veio me agraciar com uma visita de flores, não costumo recebê-las, mesmo assim gosto, gosto bastante, gosto mesmo é de você aqui, com flores ou sem. Flores é um agrado, não te amo mais por isso, porém meu coração pula melhor. Então, aproveitei a confluência de fatos, é que eu havia ido ao mercado na intenção de comprar pêssegos, pêras e pasta de dente, e acabei por comprar, sem muita vontade, só para ter mesmo - um dia bate essa de desejos insistêntes e talvez acalme a vida - uma lata de coca-cola, que sempre mata a fissura. No momento pareceu muito lógico comprar uma garrafa rum. Coca rum. Fez sentindo, então ficou essa garrafa guardada de rum, lacrada, intócavel. Coloquei ela no congelador quando você entrou e se enroscou com o gato, ele gosta de ti. Gosta mesmo. Eu fui terminar essas tarefas de casa, tirar roupa do varal, porque tem mais lavando, e roupa suja e suja, e limpa e envelhece. Você alí com o gato no chão se contorcendo, brincando de ser gato também, de ser isso que você já é. Quando acabei você me esnobou pela sacada, você lá e o gato no sofá mexendo o rabo como se me chamasse. Peguei essas torradas para forrar o estômago de alguma coisa, levei duas num prato para ti, mas tu nem tocou, ficou lá, olhando o céu, às vezes eu, às vezes parecia que se perdia em si. Foi só aí que eu fui na sacada e tive a ideia de como retribuir esse agrado de flores. Comi suas torradas com ar de deboche, como um gatuno que se gaba de meus próprios truques. Recolhi essas folhas de hortelã que cresce no meu vaso longo de hortaliças. Um pouco de limão, açúcar, água com gás e essa garrafa velha rum. Rum sem coca. Mas talvez o velho seja eu, com minhas garrafas de água com gás. Levo teu copo. Você demora, mas pega. Esboço algo que aconteceu hoje, falo um pouco dessas pessoas que você também conhece. Aos poucos você bebe tudo. Daqui a pouco é tarde e eu vou ter que dormir. Eu sento no sofá e você se encosta, como se fosse um gato. Com uns gestos que já sei há muito, pede carinho. Não ronronas, mas sei que gostas. Sei que logo irás embora.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

cantares

   A essa altura, fadado por esperar qualquer notícia sua, meu desejo cansa. Fadiga boa, como o calor das tarde sentadas na varanda, onde a brisa alcança o rosto, nada além de observar o movimento e esperar o tempo passar. Contando as cores de carros, a brincadeira que era mais divertida na infância, hoje é assim, preto prata prata branco preto, uns rápido, outros tranquilos, um ou outro barulhento, como as cigarras cortejando com canto. 
   Que o verão sempre perturbe a paz, e o sol inche, inflamado o desejo com o calor reprotudor do canto ao pé do ouvido, insone na cama. Madrugada e me resta o último cigarro, guardo até não aguentar. Mais uma espera se agrega. Esperar o momento certo do último cigarro. Não é a toa que as tardes das esperas se prolongam na noite, e há esse germe, que brota e brota e germina no calor fértil, como o suor incessante, mas sem regulagem ou controle, só subir, com a vontade de sair, florescender a ramagem, abrigar todos insetos, os de vida curta ou longa. 
   Não sei se todos atravessam o inverno. Se as cigarras morrem no outono, ou se procuram abrigo nos braços amigos das formigas, aí então é canto underground, God Save the Queen, a boemia em túneis. Mas talvez as cordas endureçam, sem canto ou viola, só algumas as notas flutuates de uma flauta, tocada por dedos rígidos de frio. Não sei, espero um cigarra contar para mim, sei que virá antes do seu canto. Se não for nesse aguardo no próximo verão, que será como esse regado a espera, cerveja gelada, insetos reprodutores e jardim com alto mato. São os últimos goles da cerveja, é automático, acendo meu último cigarro, cigarra canta.