quarta-feira, 28 de março de 2012

resposta inacabada.

Me dilacera o peito saber notícias tuas, sempre bem vindas, apesar do infortúnio, surpresas amargas que surgem de onde a gente menos espera, ou azedas, minha irmã sempre se confunde, não sabe distinguir azedo de amargo, acetto de amaro. Mas as deixe lado, crie com elas um pacto de paz, nada de borrifar acidez azeda nas feridas, sei que sabes disso. Com a pele aberta desse modo pensamos ser bem menos fortes do que somos. Como essas feridas nos expõem, ao ridículo, ao inútil, à bobagem da falta de sentido.

23 do 10 do 11

tecendo tramas

Tu que és torpe. Tu que chegastes e florecestes, essa flor e um sorriso. Vais sofrer quando o verão chegar. Sei que o inverno foi longo em ti, que o final se prolongou e que tua frondosa beleza se congelou nessas flores tardias da primavera. Mas eu tenho o saber (bonito), teu deflorar vai ser amargo, vai ser essa coisa ignóbil que tu és, essa flor murcha, de pele rasgada, pétalas frágeis que eu cudei veemente. Eu conheço o teu jardim, mais do que tu gostarias, sei até onde afundam algumas das tuas raízes. Detenho sem saberes um pedaço do teu destino.
Eu que sou um tolo. Eu que sei da existência do espinho e toco como se estivesse desavisado. Ou como uma bomba diante de meus olhos que eu recuso a reconhecer, então explode. E eu me despedaço e sangro, pois sou de ferro, sagro vermelho, igual teus machucados nessa flor de rosto. Mas eu tenho uma arma, uma chama que eu sei brandir, e de ferro partido derreto e me moldo novamente. Sei ser lobo, não seco no outono. Atravesso sem muitos esforços os invernos, a minha comida é fria.

sábado, 17 de março de 2012

trama lassa


Lembra como se ainda sentisse a mão firme envolvendo a nuca, a forma de segurar gatinhos, embora sem ser gentil o suficiente. Os vergões e roxos o acompanharam por dias, marcas impressas no corpo que custam a sair do pescoço. O destino de ter entalada na garganta a humilhação que impera no seu corpo, serventia diária  de posições decoradas. Primeiro assim, depois tu forças a troca, ele planeja fuga, pois sabe que te excita. E bates, sente que poderia perder a face na tua mão, desfigurada escultura. Logo paras, vais embora, não retornas, por dias as marcas diminuem até sumir. Ainda guarda uma leve escoriação perto da clavícula, pouco acima do coração. É bem sabido que a volta não se sucederá. Planeja a vingança em uma noite, na outra esquece, cozinha batatas e parece tudo bem. Pelas manhãs faz o difícil caminho até a vinícola, há esse trecho pedregoso demais na estiagem, e se chove é só lama, o pé afunda onde encontra sempre as pedras pontiagudas, bacantes, amigas que saúdam o sangue dos corte no pé. Está estampado em seu semblante que o ardil  o acompanha de mãos dadas, e na outra simula o horror com o cacho de uva, uma a uma o esmagamento viril contra o peito, sem se deixar levar pelos insetos atraídos, o líquido que escorre na mão e no peito também expurga, ou uma abelha que pousa no ombro, desejo de carregar ali a marca fúnebre da mais nova rainha, jaz a ferida que incha como o desejo. O retorno, eis que tu surges inesperado, heróico, levas o corpo dali, sem medo de botares a mão na vermelhidão do túmulo real, competes com força e aumenta a dor, o tens firme nos braços  e ele se debate como há muito tempo o faz, desde antes de partires. Calmo retornas para a casa, tranquilo, pois se igualas na força de causar as mais belas (segundo ele) marcas vermelhas é porque sabes que teu mel venenoso é anterior, há tempos deteriora e seca o pobre corpo que não encontra conforto senão no teu voo carnal diabólico. Se entras em casa e ainda sujo o deitas no sofá é para demostrar com os mais variados gestos que, além de se equiparares em força e superares o veneno das doces abelhas, não precisas da morte, apesar de lhe aplicar sua pulsão. Ferrão vital que ainda fará o corpo deitado sofrer todas as sórdidas pinturas da tua aquarela. Então lavas a tinta, a uva, o sangue. Deitado na cama descoberto de tecidos, ele já não fica sem dormir. A trama de vingança se desfez.  Respira como se fosse criança.