quinta-feira, 4 de outubro de 2012

acontece que eu conheço uma magia


O pensamento bélico preparado para te atacar parou justo na pressão fina e pungente, logo um corte tão fino, não sangra, coagula, seca e arde, arde tanto, enquanto um peso naufraga peito adentro. Minha fala malvada e perigosa me envenena, se espalha no meu corpo, percorre o meu dedão, porém em mim tem efeito de remédio, pois o veneno fui eu que elaborei, e ainda por cima me detive no trabalho de aprender a sublimar esse visgo imperfeito, e o teu infortúnio será vapor exalado de meu suor, e, derradeiro, transformará o límpido azul do céu em tempestade densa, negra, fervente. Mesmo com toda força, não vou te chover em pedra, e por puro poder das palavras, não anteciparás meu novo ataque, não terás proteção. Besta, lerda, flácida tua tez será nada tenaz, aos poucos derreterá, fluirá aos esgotos, e vais morrer aos poucos naquilo que eu proferi, no que eu falo quando eu falo de desgosto. Morreu no meu dom da profecia, falarei diante teu túmulo.

E tenho aqui, o dom da clarividência, já fui tolo, por ti e por outros e outras coisas. Na minha fronde de veludo atesto tua fronde franzida na dúvida fatal, por que a morte me nina em fronha de veludo. Vou transformar teu contorno azul da noite e rasgar teu travesseiro guardado entre as pernas, penas esparsas, pigarro, trevas. É minha guerra. Tu, sufoco transfigura pedra.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Mordi a língua

Eu não sei precisar o quão assustador foi - bastante? - porque para mim foi.  Paixão tem um quê de assustador. Hoje é só pesadelo, embora eu tenho acordado.
fui um tanto indelicado. nada comparado de como eu posso ser agora, aprendi crueldades desde então. Não é que eu não queira ser seu amigo, mas não quero não. mas quando eu escrevi eu realmente não sabia como eu iria reagir se eu te, não quero reações negativas. E eu as tive. Não quero que haja climão, e como há. Ou que a gente se evite. E eu te evito.
Exagerei na tragédia das dores do amor. Mentira.
Não estou sofrendo tanto assim, mentira, sofria sim, e ontem foi um dia bem feliz. O dia tinha sido feliz mesmo.
Amores vem e vão.  
e vão, e vão, e vão, e vão. 
Da próxima vez, espero ter mais sorte, espero mesmo, e que você tenha também. E você teve e foi o meu hasard.
tirar você completamente da minha vida, eu não quis, mas a vida exige, não me iluda que não.
mas sei lá, isso sou eu, e eu acho que eu sou meio louco. e procuro a verdade no falso.

Eu não sei de você. Pelos outros, eu sempre sei um pouco.

tua fala imaginada por mim sobre a visita que não há

    Eu passei um pouco de café, forte e sem açúcar, mas na verdade eu não consigo lembrar se era assim que tu gostavas. Houve recusa, portanto ofereci algo gelado, e suspeitei não ser o melhor, porém mesmo assim dei a opção ululante do álcool. Aceitaste, e começamos nosso fim de tarde com um vinho. Tu passaste por alguns cômodos para eu mostrar como é a casa, e mostrar coisas que achava que tu gostarias de ver, uns livros, uns livros de figuras, uns livros artesanais de fotos minhas e outros feitos por um de nossos amigos. Eu atendi um telefonema, e vi que tu conversavas com a orquídea, do mesmo modo que tu conversavas com o cachorro da Taíse, firme e delicado, como quem é superior e ao mesmo tempo não tem tal prepotência, é quase paterno, e é infantil. Isso me distraiu do telefone e ficaram do outro lado. Alou alou aloooooou, tim não derruba minha ligação. Ra-rrá, eu ri e tu me olhaste. E não te encarei. Não havia o porquê, eu até fui para à cozinha. E aos poucos bebemos e compartilhamos coisas boas. Tu falaste sobre coisas que haviam perturbado a ambos, e parecias amargo, sempre achei que tu não envelhecerias amargo, enquanto a Taíse sempre disse que sim, que envelhecerias antes do tempo e que serias rabugento. Te escutar foi resgatar algo do meu passado, algo que parecia distante, como uma gaveta no quarto que a gente não sabe a forma que ela tem por dentro, e eu me surpreendi com a tua alegoria dos espinhos que eu cultivava fora de casa, enquanto por dentro a orquídea florescia solitária. Expuseste a tua dúvida sobre aquilo que muda na gente, ou o que não muda em cada um, o que aparenta ser uma contradição nefasta da imobilidade eterna na duração. Que a minha casa era o mesmo velho eu. Que com teu eterno medo, não andarias no meu jardim. Em tom de confissão me contaste sobre muito do que aprendeste sobre flores durante aqueles meses nos quais sair de casa era impossível, mas que foi por uma vontade de cultivo que saíste, e saíste feliz.

   Adentramos a noite, e li para ti o caderno da Taíse, aquele misterioso que ela sempre andava a escrever e carregava para todos os lados e não deixava que o tocassem. Era o grande rascunho do livro que ela lançou. Tu não quisera ler, então me ofereci a ler contigo, e mais tarde tu choravas, mesmo com toda paciência e esforços que fizemos para não trazer os espinhos para dentro. Eu te toquei, sem perceber que eu tinha meus próprios espinhos. Pois apareceu essa mancha densa e de incansável expansão na sua camisa, brotou na altura do peito. O sangue, mais tarde, já havia sujado o tapete. Tu adormeceste, e eu fui me isolar no meu quarto. Olhei algumas fotos tuas na internet, e finalmente escutei o barulho do porta.
   Os espinhos estavam dentro de casa, a orquídea intacta, a porta fechada e manchada de sangue, o tapete de sangue, os espinhos de sangue, no caderno da Taíse manchado. O vento assoviando por frestas da casa. Nada é tão bem protegido, e nada de ti é presente, a não ser o resquício viscoso. E eu não sabia se retirava os espinhos de casa, eu não sabia se eu tirava os espinhos de mim. Não sabia se os espinhos eram meus ou teus. Ou se o meu corpo era a minha casa, ou se o teu sangue já pertencia a mim. Eu chorei a minha dúvida, e conforme eu me acalmava, o vento aos poucos ia perdendo força. Ele chegou em casa e me confortou. Nem notou a sujeira hemoderivada, nem os espinhos. Ao me dar por conta que o vento não sussurrava dentro de casa, senti que o sopro de vida que te carrega também havia cessado. No dia seguinte, levei ao túmulo de Taíse a orquídea, levei o pedido de que meus espinhos não fossem amargos.