segunda-feira, 1 de outubro de 2012

tua fala imaginada por mim sobre a visita que não há

    Eu passei um pouco de café, forte e sem açúcar, mas na verdade eu não consigo lembrar se era assim que tu gostavas. Houve recusa, portanto ofereci algo gelado, e suspeitei não ser o melhor, porém mesmo assim dei a opção ululante do álcool. Aceitaste, e começamos nosso fim de tarde com um vinho. Tu passaste por alguns cômodos para eu mostrar como é a casa, e mostrar coisas que achava que tu gostarias de ver, uns livros, uns livros de figuras, uns livros artesanais de fotos minhas e outros feitos por um de nossos amigos. Eu atendi um telefonema, e vi que tu conversavas com a orquídea, do mesmo modo que tu conversavas com o cachorro da Taíse, firme e delicado, como quem é superior e ao mesmo tempo não tem tal prepotência, é quase paterno, e é infantil. Isso me distraiu do telefone e ficaram do outro lado. Alou alou aloooooou, tim não derruba minha ligação. Ra-rrá, eu ri e tu me olhaste. E não te encarei. Não havia o porquê, eu até fui para à cozinha. E aos poucos bebemos e compartilhamos coisas boas. Tu falaste sobre coisas que haviam perturbado a ambos, e parecias amargo, sempre achei que tu não envelhecerias amargo, enquanto a Taíse sempre disse que sim, que envelhecerias antes do tempo e que serias rabugento. Te escutar foi resgatar algo do meu passado, algo que parecia distante, como uma gaveta no quarto que a gente não sabe a forma que ela tem por dentro, e eu me surpreendi com a tua alegoria dos espinhos que eu cultivava fora de casa, enquanto por dentro a orquídea florescia solitária. Expuseste a tua dúvida sobre aquilo que muda na gente, ou o que não muda em cada um, o que aparenta ser uma contradição nefasta da imobilidade eterna na duração. Que a minha casa era o mesmo velho eu. Que com teu eterno medo, não andarias no meu jardim. Em tom de confissão me contaste sobre muito do que aprendeste sobre flores durante aqueles meses nos quais sair de casa era impossível, mas que foi por uma vontade de cultivo que saíste, e saíste feliz.

   Adentramos a noite, e li para ti o caderno da Taíse, aquele misterioso que ela sempre andava a escrever e carregava para todos os lados e não deixava que o tocassem. Era o grande rascunho do livro que ela lançou. Tu não quisera ler, então me ofereci a ler contigo, e mais tarde tu choravas, mesmo com toda paciência e esforços que fizemos para não trazer os espinhos para dentro. Eu te toquei, sem perceber que eu tinha meus próprios espinhos. Pois apareceu essa mancha densa e de incansável expansão na sua camisa, brotou na altura do peito. O sangue, mais tarde, já havia sujado o tapete. Tu adormeceste, e eu fui me isolar no meu quarto. Olhei algumas fotos tuas na internet, e finalmente escutei o barulho do porta.
   Os espinhos estavam dentro de casa, a orquídea intacta, a porta fechada e manchada de sangue, o tapete de sangue, os espinhos de sangue, no caderno da Taíse manchado. O vento assoviando por frestas da casa. Nada é tão bem protegido, e nada de ti é presente, a não ser o resquício viscoso. E eu não sabia se retirava os espinhos de casa, eu não sabia se eu tirava os espinhos de mim. Não sabia se os espinhos eram meus ou teus. Ou se o meu corpo era a minha casa, ou se o teu sangue já pertencia a mim. Eu chorei a minha dúvida, e conforme eu me acalmava, o vento aos poucos ia perdendo força. Ele chegou em casa e me confortou. Nem notou a sujeira hemoderivada, nem os espinhos. Ao me dar por conta que o vento não sussurrava dentro de casa, senti que o sopro de vida que te carrega também havia cessado. No dia seguinte, levei ao túmulo de Taíse a orquídea, levei o pedido de que meus espinhos não fossem amargos.

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