sábado, 16 de novembro de 2013

licantropia

 A areia da praia estava escaldante. Já era tarde, o sol não mostrava sinais de que daria uma trégua, no céu nenhuma nuvem ousaria brandir-se branca como bandeira. A pele mal cuidada arderia a noite inteira, como se um pedaço do sol se instalasse em nós, e poderíamos queimar a tudo, até nos mesmos, e incendiaríamos a noite em claro, consumidos por um tipo de insônia; tive cuidado eficaz na proteção da epiderme, chega a noite e apenas um hidratante após o banho resolve qualquer perturbação do ressecamento. A noite é branda.
 A lua é cheia de luz para a praia inteira, e seria um pouco mais lindo se tu estivesses aqui comigo para depois de muitos verões lembrarmos de como a luz daquela lua tão cheia iluminava toda a extensão do mar calmo, que há muito tempo não vejo. Não vejo um mar calmo assim há anos. É sempre um agito, uma ressaca, o incansável vai e vem das ondas, tudo espuma e borbulha como nessa tarde em que o mar ferve calmo, ainda mais calmo quando esfria nessa noite, numa praia amplamente iluminada por uma lua cheia de pensamentos de ti. De como tu encostaste a mão na minha, só um roçar de pelos, de como sinto arrepiar tudo e ajeito a posição da coluna, quase sempre corcunda, para uma retidão da nuca e um movimento que acalma os poros, e tu me beijarias, e eu te beijaria. Um logo beijo intercortado pelo primeiro eu-te-amo que tu falaste sem ao menos olhar no meus olhos. Eu lembraria zombeteiro muito verões depois do modo desajeitado como um adolescente nervoso. Defenderias teus atos com convicção, aquela dos adolescente transbordantes de razões e novas verdades sobre o mundo, assumirias que tinhas medo de que eu não tivesse dito eu-te-amo de volta, que alguma nuvem cobrisse a lua, e reinassem as trevas.
 Numa noite amena de verão de brisa fresca e poucas nuvens, nada esfria a saudade de ti. Mesmo sabendo que teu toque virá logo, embora as nuvens já estão aqui. Se não ousam a luta contra o sol, ah! contra a lua se reúnem para tentar guerrear com sorte. Ainda que cheia e mais próxima que a estrela, a lua pode ser facilmente abatida por um grupo sorrateiro, que ganha em velocidade com a ajuda do vento. Eu preferiria em ti a trans-muta-forma-ção de um lobo a ter que te perder nas sombras da lua nublada. Deixaria o meu trapézio a mostra para tu afiares os dentes até que o tédio de brincar com a carne estraçalhada abatesse sobre ti, e irias embora correndo por uma floresta de pinos, e de manhã nós iriamos acordar. Tu pelado e sujo e eu no teu colo fraco, arranhado e mordido. Estarias muito cansado para cuidar de mim, afinal é fatigante ser um lobo da noite.
 Eu durmo na areia, acordo com a água bem fria batendo nas minhas pernas. Não é dia, contudo a luz do céu é quase um azul que indica o fim da noite, não há lua. Fico a pensar onde você terá acordado, nu e só, em qual floresta distante. Penso em te ligar, mas os pelados não andam com celular. Algo dói e a água fria chega nas coxas, o céu ganha mais tons. É como um período de mudança perceptível, sabemos que está sempre mudando, mas nunca é tão rápido e lindo quanto o amanhecer.  Quase nunca vemos o dia amanhecer, estamos deitados abraçados, e isso parece mais bonito que qualquer dia de sol. No dia que a gente se conheceu chovia muito. Algo dói no ombro, a água já bate na cintura, e talvez o sol esteja chegando no horizonte do mar. Tento me levantar, doem as costas e acho que não vou conseguir, deito de volta e tudo arde. Sangue, areia, salmoura. Toco o lugar dessa mordida só para confirmar com os dedos rubros. Fico feliz que estiveras aqui. Uma pena que já teve de partir.  

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

história sem fim

  A dor estrondosa da separação. O coração partido. As agruras do amor mal vivido. O músculo rasgado. O dissabor de um encontro ao acaso. Buraco no peito feito por broca. Ela olha e hesita, aí vem ela, ela chega bem pertinho, e ele perde um pouco do ar, e tenta disfarçar, contudo é visível o arfar acelerado na caixa torácica, os pulmões em plena força, enquanto o coração se contorce meio desfalecido para satisfazer os serviços de irrigação. Dá pra ver, por ali, ali no buraco aberto pela broca, tá vendo, isso, o troço tendo espasmos. Ele não aguenta, não há ar, ele respira fundo, mas é problema na bomba, nas válvulas, nos ramos a caminho de banhar as células, e como se pulasse para fora do corpo, como se fosse sobra de excesso de carne, uma vermelhidão pulsante brota do buraco-de-broca e, no seu próprio pulsar, salta o suicídio da dor de existir, de existir agora na frente dela, o limbo do esquecimento do que é ser diante do que foram. Chega ao chão com um som gosmento, a cara dela exibe o nojinho que tem desse troço estarrecedor no cimento, sem ao menos parar de pulsar, de tremer, ou de, o que é isso?
  Acho que é você, ou é o que você foi. Talvez seja o que você foi se transformando naquilo que eu acho que você é. 
  Não é bonito.
  Por que haveria de ser?
  Ela deu um abraço nele. Uma quentura escorreu no peito dos dois, e viram a vermelho manchando a pele, tornando rubro aquele abraço, e ela não conteve o grito. Correu. Ele se abaixou e colocou na mão o pedaço do coração, ele reconheceu que deveria ser um pedaço do ventrículo direito. Inclinou o que pôde da cabeça e, olhando o buraco aberto por broca, colocou indicador para sentir onde deveria encaixar aquele pedacinho. Sentiu a cavidade vazia, mas não segurou o desejo de fuçar um pouquinho mais. O dedo foi devagar descobrindo o que havia por ali, novos espaços foram descobertos. O coração estava todo vazado, seria isso mesmo? Vazado. Vazio. Perguntou se teria algum tipo de problema se retirasse o coração para o olhar melhor, logo percebeu que seu punho inteiro entrara pelo buraco feito por uma broca, e apalpava quase por inteiro, enquanto os dedos tateavam a superfície que apresentava esse sulcos, a carne erodida pela ação de tempos e tempos de amor. Ele via seu próprio coração como se fosse um cego, que enxerga através da percepção háptica.
 E por vidência vê tudo. Aqui onde se localiza a coronária, o nome dela. Ele lembrou o nome, o cheiro, o dente torto, o modo desajeitado que ela beijava de língua. Lembrou-se de Marisa.
 Que tontura domina a cabeça, que agudez se instala no centro da testa, o cenho franzido concentra um peso, e ele se vê obrigado a tossir. Por costume fatal retira a mão do buraco e cobre a boca com a mão. Ah, quanto sangue. Um banho, o banquete vermelho de um festim. Embriagado por lembranças de dor e dor real, ele demora para ver que um pouco esmagada a coronária/Marisa se encontra na sua mão. Mais um pedaço fora do peito. Tudo gira. Na embriaguez, cai no chão.
  Ele acorda numa cama, o quarto está escuro e frio. O peito ainda dói. Uma voz pergunta se ele está bem. Onde estou? Lembra-se de alguma coisa? Ele lembra.
  Ela chega bem pertinho, abraça um abraço frio, um sorriso cínico. Lembra que Marisa apareceu meio de repente com aquele namorado que ninguém gosta. Ela quer ir embora, mas antes pergunta se ele está bem, mesmo que não quisesse ouvir a resposta se ele não estivesse. Ele fala.
  Acho que estou bem. Só uma dor aqui no peito. Ele bate na altura onde deveria estar o buraco, e tec tec. Esse som de unha batendo no vidro. A voz assume um tom fraternal. É cristal.
  A voz conta que foi obrigada a fechar aquela ferida. Não parecia a princípio, mas era uma ferida. Retirei o coração, mas ainda podemos colocá-lo de volta. Descansa mais um pouco.
 A noite ele levantou para ir ao banheiro. O dono da voz estava dormindo ao seu lado. A cama rangeu com o movimento, e o outro perguntou se ele queria ajuda. Ele foi ao banheiro sozinho. Ao sair pediu um pouco de água para o outro, que acendeu as luzes em direção a cozinha, ele o seguiu. Na cozinha ele viu dois potes de vidro, dentro de cada um deles uma criatura indescritível, um monstro horripilante, uma nojeira escarlate. Duas!!! Dois. Um em cada. Ele foi dormir com a visão mórbida dos corações envidraçados, o dele e o coração do outro. Não pode mais dormir. O outro repousou a mão no peito de cristal dele. Ao poucos começou a esquentar. É difícil dormir com o peito frio, dormiram.
  Na quietude do sono, ambos não notaram os estranhos acontecimentos que ocorriam na cozinha. Os monstros ainda pulsavam dentro dos seus vidros, e suas palpitações faziam tremer os potes, ganharam vida até caminhar à beira do armário, e um novo suicídio se sucede, duplo, um após o outro. Os corações arrebentados pela queda, perfurados pelo vidro estão espalhados pelo chão em diversos pedaços que pulsam sozinhos esperando a morte.
  Ele sonhou. Dia de sol e brisa quente. Maconha e bebida. O sorriso da Tereza girando num gramado florido, dançando com Carlos. Os dois se beijam. Mas quem é Carlos? Ele sonha que o outro está do seu lado, e o outro chora apoiado ao seu ombro. O outro solta um grito, escorrega ao chão, esmorecido sussurra o nome de Carlos, está num pesadelo. Ele olha novamente para Sabrina que já não dança e vem na sua direção, ela chega bem pertinho, porém se abaixa para beijar o outro. Ele sente o cristal do peito trincar, ou vai ver é só vidro. Uma mão pega o seu pescoço, ele se vira e é o Carlos, mas quem é Carlos? Carlos o beija.
  Acorda sozinho na cama.
  Algo que já te pertence e é arrancado de dentro de ti, mas que de certa forma continua dentro. Não sai, te pertence. O tempo não cura, só causa esquecimento, é preciso esquecer para criar com o acumulo de pó na memória.  Eu sei contar uma história de amor, já estive lá.
  Tu  aprendes a conviver rasgado. Mesmo que tu queiras que eu te fulmine, e assim me destrua. Mesmo que o amor parta novamente, é mais um pedaço arrancado do pedaço,

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Um Novo Quarto

  Deitada de um jeito incômodo, por impaciência de casa e vontades outras, vira, fica toda torta, toda bagunçada, o lençol escapando do colchão. Ela percebeu assim a rachadura na parede, discreta e torta, mas ali, onde ela se deita à noite, toda torta. Quis olhar mais reta para curvas da rachadura, o desenho sinuoso continuava cama abaixo e talvez dê a volta no chão. Dia após dia espicha um bocado até conseguir, com paciência milimétrica, dar a volta no quarto, esse inferno de quarto solitário no verão. Tu lá, aproveitando o conhaque nas veias e dançando axé sem gingado, como se fosse muito legal, muito a tua praia, cheia de de sol e cachaça, e quem sabe algumas mulheres que esfreguem suas pélvis na tua.
  A noite longe de acabar, pensa nos velhos acúmulos, os cd's empilhados no chão: fora, o chapéu: fora, as conchinhas coletadas da praia de um dia especial: fora, a camisa de cetim esquecida numa gaveta: lixo, fotos no mural: lixo, fotos da viagem a Portugal: rasgadas para te jogar no lixo, brincos não tão bonitos: lixo, scarpin roxo: Camila. Tudo indo em direção ao lixo, à ruína, ao fogo. Menos o scarpin que é muito lindo, e a Camila sempre quis emprestado e o tomar para si. Mesmo vocês nunca tendo se gostado, Camila te respeitava pelo bom gosto excessivo para sapatos. E o scarpin roxo era essa preciosidade, e tu já mostrava ciúmes quando a Camila apenas pegava o sapato. É dela agora. 
  A rachadura recém descoberta divide a cama em dois, o quarto com a bagunça das tuas coisas empilhadas na cama, todas do lado de lá da rachadura, do antes, da outra, tudo lá, ela de um  lado torta e com o par de sapatos da Camila, todas as outras tuas coisas do outro. Ela ficou olhando essa rachadura e pensou que podia dar um jeito, e como se uma nova mão de tinta extinguísse as lembranças dessa rachadura imensa que atravessa o piso de porcelana. Ela recuperaria a outra parte da cama, do quarto, mesmo que estivesse vazio de coisas. Ela teria uma cama inteira. É muito mais fácil para quem tem pouco aprender a dividir, então ela vai aprender esse sempre novo processo que é dividir a cama com alguém. Mesmo que a rachadura esteja curada por tinta, mesmo que a tua partida ainda se embrenhe nas suas entranhas.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

domésticos

   A televisão quebrou, e foi assim que eu conheci o teu toque. Aquilo com o qual eu sempre sonhei, durante toda a adolescência, e nunca consegui por certo fazer, anos mais tarde eu aprendi contigo. O toque quente das tuas mãos, em partes do meu corpo que eu nunca imaginei conhecer, embora eu já tivesse ouvido falar, fez que eu me esquecesse de cuidar daquilo que foi sempre ensinado por certo. A partir do conhecimento expansivo do mundo, a imagem que a "boa educação" fazia entender como única a ser seguida estabeleceu suas raízes na área da dúvida, o modelo da moral e dos bons costumes se mostrou como uma forma sem sentido. Conceito e padrão que oferece  o melhor da vida para quem mantém a linha. Essa linha, ou fio preso ao pescoço, corda imaculada que enforca qualquer tentativa de escapar, impedimento da jogada para aqueles que pisam fora da linha. A castração pela condição quadrada de levar uma vida confortável. Eu esqueci, eu finalmente obliterei a obsessão tirânica dos adultos de vida confortável.
  O microondas quebrou, e foi assim que eu conheci teu rosto. Fui obrigado a esquentar a comida na panela e me desfazer dos congelados próprios para microondas. Numa dessas idas para deixar as coisas que não prestam mais em algum lugar da rua, estava lá seu rosto, você meio distraído, meio esperando, meio perdido, você me viu, mas não sei, o sol batia na sua cara e tudo se tornava indiscernível, não sei, olhava na minha direção mas o sol excessivo não deixa eu ter certeza se era para mim. Então, eu larguei o lixo no chão, olhei de novo na sua direção, e foi minha sorte que esse ônibus passou e fez uma sombra milagrosa de deixar eu encontrar o seu olhar, o que me fez sorrir, essa constatação da certeza me faz sorrir às vezes. Talvez eu só me dê conta agora que foi você que me ensinou a ter gosto de viver sob o risco. Ou talvez foram os seus livros.
  A máquina de lavar roupas quebrou, e foi assim que eu conheci o teu mau-humor. Os dias encarcerados no quarto, as tardes de sábado lavando cuecas, faça sol ou chuva, a  mão gradativamente ressecando do sabão, o seu toque sem tesão. Dormia no sofá assistindo à tv, enquanto eu ia dormir mais cedo na cama com um pouco de frio, a geladeira vazia e o armário cheio de porcarias, calças jeans usadas até ficarem encardidas, e em casa o uso mínimo das roupas, você prefere só usar essa camiseta gg puída, e eu fico só de cueca, às vezes a casa está gelada, mas que se dane! Brigas na cozinha, lavar roupa e lavar louça. Coca-cola em lata até dizer chega, hidratantes para mão terminam, pastas de dente que os tornam mais branco. Você tira uma onda da minha cara, e quase me bate se eu faço o mesmo. Ficou sem roupas limpas e passou a usar as minhas.
  Aí um dia estava tudo funcionando, e você voltou para casa e me abraçou de um jeito que nem lembrava mais e a gente se beijou, e anoiteceu, e lembro muito bem que fui dormir com a sensação que eu era feliz.

domingo, 11 de agosto de 2013

Antes de Vir o Sono

Estou perdido. Não perdido em um labirinto de única entrada e saída, ainda que eu seja alvo fácil à besta meio humana, mas perdido entre mármore urbano em chamas. É o meu fim. Eu poderia conhecer essas ruas e saber que ao final dessa rua uma guinada à esquerda poderia me deixar de cara com a escada e ficar a salvo, poderia ficar livre, porque lá - onde eu posso chegar virando a direita aqui e subir por ali até que depois daquela vendinha para se deparar da mesma forma com a escada,  eu desceria deslizando pelo corrimão com os braços abertos ao berros, estou livre. Não. Estou perdido.
Sem muito esforço eu poderia memorizar o nome dessa, das paralelas, as que cruzam e até aquela torta que corta tudo num ziguezague maluco, saberia qual seria o menor caminho para ir daqui a qualquer lugar. Sem muito esforço, contudo o calor já me paralisa. Há muita fumaça, nem sei mais pensar ao certo. Eu poderia saber os caminhos, e tirar a névoa desses espaços e o tornar menos labiríntico, dizer com o orgulho dos céticos que sei onde estou pisando. Pisar no chão queima. O fogo crepita, avança. Minha pele arde ao calor, sinto tudo secar e tudo suja, fuligem. No rosto a vermelhidão é apagada pelo toque das cinzas. Pergunto se a morte será rápida que nem em Pompeia. Ou se, ao contrário do Vesúvio, eu poderia aplacar a fúria dos fogos com uma prece, com promessa de sacrifício, talvez de uma virgem, sagrada e imaculada, ou quem sabe de um boi, sagrado em sua castração.
Pergunto a um deus ou dois se há ainda salvação, mesmo que eu fique cego, com problemas pulmonares que certamente me levarão a outra morte prematura, porém mais longínqua no tempo. Prefiro a morte prematura vindoura do futuro não tão próximo a ter que acordar depois de horas inconsciente, por causa a inalação excessiva do carbono, para esperar nos braços o fim da vida. No meu rosto iria aparecer o lamento de desconhecer a geografia local. Eu não teria ideia de que rua você haveria surgido, e com o barulho nós nos viraríamos para assistir à queda de um prédio um pouco mais antigo, fragilizado pelo excesso de chamas. Por fim, eu sussurraria, estou perdi. Um longo acesso de tosse me interromperia, tiraria quase todas as minhas forças, diminuindo mais cinco preciosos minutos nos quais eu ainda teria vida nos teus braços. A tosse cessa. Nos meus olhos a súplica por alguma coisa, qualquer coisa, para que isso se torne menos a eternidade, e mais tosse, então fecharia o olhos tossindo, reuniria todas as minhas forças e as gastaria ao apertar o seu ombro, tão forte que ao fim da tosse eu já estaria morto com os olhos fechados. Não verias o meu olhar ao encarar a morte, que zombaria de mim: morreu por ignorância geográfica. Sempre tão atento aos dados precisos de um mapeamento, foi deixado de lado o orgulho de ter tal conhecimento, e foi seu fim.
A morte-antes-do-tempo desvanece assim que eu encontro a escadaria. Providência divida, deuses atendendo as preces. Brigado, brigado. Muito obrigado. A felicidade me cega e perco. Eu me perdi no cálculo de onde pisar nos ângulos retos da arquitetura geométrica das escadas de mármore. Um passo em falso, perco o ar, mas ganho o chão, ganho alguns hematomas no corpo, ganho contusões e, ao chegar ao nível mais baixo, ganho o troféu, como se sustentasse na cabeça a coroa de sangue iniciada por um esfolamento da fronde. Estou queimado e tossindo. Estou perdendo sangue. Estou perdido.
Não desmaio, alguém pergunta o meu nome, diz que eu preciso ficar consciente, porém eu queria apagar, a chama que parece queimar no meu corpo.  Bolhas da queimadura já surgiram. Por benção, o mármore aqui de baixo é frio, e por sacrifício, o mesmo mármore deve ter fraturado alguns ossos do meu esqueleto. Nunca perdi tempo procurando saber os nomes dos ossos, mas as ruas. Eu sempre me perdi nas ruas para conhecê-las, reconhecê-las, interligá-las por meio de outras ruas perdidas. Por diversão. Não foi exato por isso, diversão, que os deuses lançaram fogo nesse emaranhado que ainda não tem sentido na minha cabeça. Quase morto, eu não sei decifrar as razões dos deuses, ou do teu deus que tu chamas de acaso.
Vejo o sangue escorrer no mármore, o meu sangue, logo parece que é muito, sinto algo viscoso nas pernas, deve ser mais ainda. O quão cheio de sangue a gente é. Mais gente se aproxima, há muito desespero, já nem sei mais se sinto dor, nem sei mais se eu sinto. Mais alguém se curva para falar comigo, e cobre o sol que incindia sobre o meu rosto. Fecho os olhos. Ah! Como é doce a sombra, seria você preocupado, ou seria ela, a morte, querendo me acalmar antes de me levar a vida. Sinto que vou dormir. É você quem me beija? Queria que fosse. Imagino meus lábios se projetando a sua boca. Posso estar beijando a morte. Ou talvez o beijo seu seja meu ocaso. Você me mata com um beijo. A última coisa que eu lembro é um trecho de um filme francês que a gente viu junto:
"Eu conheci você.
Lembro-me de você.
Quem é você?
Você está me matando.
Você me faz sentir bem.
Como eu poderia ter duvidado de que esta cidade foi feita nos moldes do amor?
Como eu poderia ter duvidado de você foi feito nos moldes do meu corpo?
Eu gosto de você. Qualquer acontecimento. Eu gosto de você.
O que abrandar repentinamente.
Que doçura.
Você não pode saber.
Você está me matando.
Você me faz sentir bem.
Você está me matando.
Você me faz sentir bem.
Eu tenho tempo.
Eu lhe imploro.
Me devora."

É você? Que me persegue entre os moldes geométricos das placas de mármore, é você, que caminha por esse labirinto? É você a besta que eu topo de frente a cada curva desconhecida, é você que vai estar do meu lado quando eu acordar? Que me aquece quando durmo no mármore frio? É você que vai sujar suas roupas me abraçando ensanguentado? Que vai sujar suas roupas de terra e me enfiar num buraco? É você que ainda me beija, enquanto eu decido:
se eu acordo contigo
ou morro com o texto.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

#7

Minha vontade é a palma da minha mão esfacelando a tua bochecha. Ah o tapa, o estalo, e ver a cor te recompor a pele e a sanidade. Por favor, pare de me jogar esses apuros de falta da caso, de cansaço demasiado e falta de interesse, poupe o meu tempo das articulações mesquinhas do seu desejo de estar sozinho. Sei que o meu toque já te muda de ideia. Sei que um tabefe já te põe pronto. Sei que tu investe mais em imagem do som. E esse estalido surdo, e tudo muda, a tua face, lívida, pronta para vingança, pronta para o canto. Tu olhas para baixo por um tempo longo, um tempo mudo, então me encara. Um lado mais vermelho que o outro, e o teu olhar é mais violento do que eu jamais vou conseguir ser. E agora sou eu que devo apanhar. Eu me desvio e desviro e deslizo, quero escapar. Assim como tu, não quero me lograr espinhos, ou me cercar para o choque. É que depois deste abalo há o devir, e o furacão nos deixa ainda mais tonto, porque eu te encontrei bêbado, e ainda eram quatro da tarde. E ainda tu se fazia de difícil, porque tu queres que eu dê corda para tu acordares e despertares em mim toda a submissão de um teatro autorizado. Tu gostas que eu finja que não gosto. Ah o prazer, e estais bêbado a sussurrar todo o tipo de ordem em palavras chulas, e eu finjo que gosto, mas me enojo, e te bato outra vez, tão forte que tu te curvas ao chão e demoras para subir, sóbrio, e beijas e me arranhas e me jogas longe. Eu choro um pouquinho. Pro teatro de não gostar te excite ainda mais, e quem sabe eu ainda apanhe por um bom tempo, antes de querer levantar a mão de volta ao teu rosto. E quem sabe tu não percas um dente. Aí poderemos se beijar, e vou colocar a língua no espaço banguela do teu sorriso, que ainda está a jorrar sangue, para finalmente tu morderes com toda a força a minha língua, assim aos poucos a gente vai se despedaçando, se colecionando, se amando de prazer e dor.

sábado, 27 de julho de 2013

estação longa

   Acordei, enrolei-me no lençol e fui até o jardim, o portão aberto. Não consegui fechar, depois que o teu carro passou por ali, não consegui fechar, não quis me fechar de ti. Vento matinal tão frio que o lençol nem protege, mas me aqueço de pensamento em ti. Continuo com frio, seria meu pensamento trama tão fina quanto os fios entrelaçados, soltos do lençol identificado por padrões de figuras de flores como se fosse a própria felicidade que esquenta. Rosas rosinhas, rosa bebê, bem clarinho bem fininho, o rosa da tua face depois de um pouco de sol. Envolvo-me mas não é tão quente quanto o poder de reter calor da tua pele.
  O telefone começou o seu usual soar, nunca tem hora, embora não acabe um único dia que ele não toque. Deixo a porta aberta, chego bem perto e não atendo. Pode ser você, e bem, não queria ter falar que eu estou com frio, ou que eu não tenho comido direito, e que emagreci um pouquinho a mais do normal. Deixo tocar, escuto um toque após o outro. Sei que às vezes não é você, estou a evitar visitas. Acontece que nem toda visita anuncia sua chegada. Oliver aparece sempre de surpresa. Teve um dia que ele chegou e nem falou nada, deitou na cama e acordou algumas horas depois. Tomou banho, e me deu um abraço cheiroso. Quando está frio, ele encosta a porta, mas não a fecha, ele sabe que a casa é minha. E tua.
  Durmo bem, as manhãs acordam embaçadas, a cama parece maior a cada dia, mar de tecido revoltoso expandindo. Levanto, visitas chegam logo no café, alguma abelha se perde para comer alguma coisa comigo. Divido uma colher de mel e elas nunca me aborrecem.
   Saio sempre, dou preferência pelas tardes. Um pouco depois de almoçar, estratégia de marcar horário, pois como sempre que dá na telha. Saio e deixo tudo aberto, deixo o seu guarda-roupa aberto, ainda restam algumas coisas nele. Saio com um de seus casacos que não foram contigo. Aquele meio velho e rasgado no braço direito.Não há um só dia sequer que passa sem eu estar naquela rua. Os ipês estão floridos. Estou colhendo as pétalas das roseiras, guardo em potes de vidro, comprei um bocado deles. Li em algum lugar que as pétalas de rosa não perdem a cor, secam, mas não perdem a cor. Aprisionada a cor, tal qual eu em casa. Faz uns dias que não chove, mas não faz calor. Sempre achei que fosse mais quente essa época, mas não é como se eu prestasse muita atenção ao clima de cada mês a cada ano, apenas sei diferenciar os dias que divides a cama comigo daqueles que você não está aqui, e eu estou.
  A tarde outra visita, um bichano vem ao jardim desdenhar da minha falta. Vem, recosta-se em mim, pede alguns mimos, e vai embora. Eu o alimento na verdade, compro ração, e ele sempre volta. Usurpador de araque. Ele me arranha, mas essa é a menor das minha dores. Tô com um risco vermelho longo no braço, tenho vontade que tu vejas, quero te deixar com ciúmes igual quando acordo no meio da noite e solto um grito. Tem dias que é abafado, tosco e fraco, como meu corpo, coisa desfacelada que definha a cada noite que eu grito, e cada grito é mais forte, a cada noite eu ganho voz, porque tu não estas aqui, porque eu cresço na lonjura. Minha voz não te alcança, rouca de tanta gritaria louca de ciúmes do seu caminho por essas cidades sem mim.
  Começou a chover. Chove por dias a fio, por dias de frio. Alguém me falou que era sempre assim, que caem pingos incansáveis pelos tetos das casas todas, para resfriar todo o ar, todos nós. Acontece a mobilização de fechar janelas, desencano e as deixo abertas. Não reclamo sabe, meus pés gelam mesmo nas noites de verão, porém às vezes Oliver se enrosca e me aquece de baixo dos lençós. Quando você está, eu ponho meias.
  Oliver está aqui de novo. Está deitado. Eu estou cozinhando. Carne. Carne vermelha. Paro tudo, caminho e estou fechando o portão, e quero jogar a comida fora, e lavo demais as mãos, gordura e sangue deixando a mão cada vez mais suja, sabão deixando cada vez mais morta, morte deixando cada vez mais velha, as mãos. Velhas. Secas, como a minha garganta. Oliver está de pé, estou nos seus braços. Eu me cortei, ele pega soro na geladeira, lava o corte. Ele cuida dos cortes na minha mão, arde muito, e me contorço, e não aguento, choro aos berros. Grito seu nome, e nada, nada de resposta, nada responde ao seu nome. Oliver faz curativos demoradamente, estou ainda aos prantos, mas já abaixaram, sinto a calmaria chegando. O silêncio feito de barulhos dos insetos. Uma cigarra canta. Oliver me abraça, e eu saio de casa, volto ao hábito de fumar que você tanto detesta. Ouço o telefone tocar. Oliver atende, mas não escuto, não quero saber quem é. Fumo um atrás do outro, fico com acessos de tosse, enquanto a comida é finalizada. Oliver deixa um prato para mim na cozinha, fuma um cigarro comigo, pede companhia para comer. Ele abre um vinho, eu durmo sob efeito da embriaguez. Quando acordo, estou só, Oliver deixou o portão aberto.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Partes Constituintes do Universo

   Usa sapatos novos. Dia um dilacera, raspa a pele e rasga, roça a dor, e fica meio manco, anda com um trejeito especial para disfarçar. Dia um é o melhor alcance da carnificina ao calcanhar do pé esquerdo. A dor se desenvolve, enquanto os sucessivos golpes se tornam repetitivos - acostuma com a ideia de dor, a cada onda, que é um encontro do pé com o terra, intermediado por couro o qual não há força que o laceie, por isso mesmo no dia dois há socorro de banda, três camadas sobre ferida aberta. A banda ocupa espaço, mas há conforto, enquanto o pé direito se perde na imensidão do tamanho e samba involuntário. Sem conseguir pensar em nada além da dor no último dia, a nova percepção do espaço maior que o devido provoca outro tipo de desconforto.
   Pronto para o dia três. Tudo é mais tranquilo, então tira o sapato, e uma montanha russa de adrenalina e tristeza atropela pela tarde, sobe e desce até o mistério do vórtice, entramos num loopin' e já nem sei sair. Preso e feitiço. Esta cidade destrói perspectivas tão rápido quanto constrói.
   Perdido, tenta achar alguma coisa, tira tudo do lugar, mas não rearranja, apenas desloca e tudo está sobre tudo, como maremoto, ou terremoto, a força telúrica que joga pedra sobre pedra, roupa sobre roupa, colcha sobre mala, tinta sobre o quarto. Reúne forças, é preciso que seja evocada todos tipo de suporte elemental. O pensamento evocado da falta, e lhe falta, tua falta, o ar parece sumir, porém a concentração nos braços leva a certeza, estou calmo, sou o olho do furacão, hoje o desespero é teu, e eu movo tudo de novo, rearranjo o quarto.
   Move moinhos. Tem poderes eólicos, misticos, ainda que tu lhe digas "és puro da água", retruco por defesa: tolo, ele controla gotículas concentradas na umidade do ar, o ar é água. E gritas: "o líquido afoga e o gás intoxica, vivo intacto das suas ações funestas". Tu és este rochedo que os homens sabem escavar, imponente, lindo e, pois bem, destrutível. Ficaste aí, enquanto conheci os redemoinhos e com eles me movo, vertigem, vórtice varão. Fui ao chão ou qualquer lugar, mesmo assim eu aprendi a dançar. O que me bateu eu absorvi, e como aquece absorver! embora uma parte eu tenha revidado, tais cores não me pertenciam.
   Sendo assim, ele que ficou sabendo as tuas boas novas, a gente sabe mui bem que fofocas são mais rápidas que o vento, não conseguiu esconder o sorriso. Não se importa com a tua dor, porque tu nunca se importou com a dele, quando ele era quente, pegava fogo de delírio febril, e transformava tudo em cinza, produzia em abundância o gás tóxico, e os fluidos apenas inflavam sua força. Até hoje o fogo da raiva aquece o coração, e por causa das tuas péssimas novas, esse desfacelamento ao vento dos teus últimos anos, o sorriso não se esconde do rosto. Ah, bonito, ele não te quer mal, mas faz um bem danado (ah, a danação) ver a ruína de tudo aquilo que o fez morrer. A fênix vem do fogo. Com esses sapatos, ele caminha por todos os tipos de caminhos, assim como em breve você fará, aproveite as dores do primeiros dias, ou dos próximos meses sem sapatos. 
  Por vezes a falta de ar toma conta em imagem, tudo é rarefeito, pois sem a redoma o ar está solto, a umidade seca, e não se sente a seguridade, mas solidão, somos pequenas partes desse sistema. Ainda que colossal o sol é frio. E eu sou pó, alvorecer. Sou gelo, refração. O céu e lágrimas.