segunda-feira, 8 de julho de 2013

Partes Constituintes do Universo

   Usa sapatos novos. Dia um dilacera, raspa a pele e rasga, roça a dor, e fica meio manco, anda com um trejeito especial para disfarçar. Dia um é o melhor alcance da carnificina ao calcanhar do pé esquerdo. A dor se desenvolve, enquanto os sucessivos golpes se tornam repetitivos - acostuma com a ideia de dor, a cada onda, que é um encontro do pé com o terra, intermediado por couro o qual não há força que o laceie, por isso mesmo no dia dois há socorro de banda, três camadas sobre ferida aberta. A banda ocupa espaço, mas há conforto, enquanto o pé direito se perde na imensidão do tamanho e samba involuntário. Sem conseguir pensar em nada além da dor no último dia, a nova percepção do espaço maior que o devido provoca outro tipo de desconforto.
   Pronto para o dia três. Tudo é mais tranquilo, então tira o sapato, e uma montanha russa de adrenalina e tristeza atropela pela tarde, sobe e desce até o mistério do vórtice, entramos num loopin' e já nem sei sair. Preso e feitiço. Esta cidade destrói perspectivas tão rápido quanto constrói.
   Perdido, tenta achar alguma coisa, tira tudo do lugar, mas não rearranja, apenas desloca e tudo está sobre tudo, como maremoto, ou terremoto, a força telúrica que joga pedra sobre pedra, roupa sobre roupa, colcha sobre mala, tinta sobre o quarto. Reúne forças, é preciso que seja evocada todos tipo de suporte elemental. O pensamento evocado da falta, e lhe falta, tua falta, o ar parece sumir, porém a concentração nos braços leva a certeza, estou calmo, sou o olho do furacão, hoje o desespero é teu, e eu movo tudo de novo, rearranjo o quarto.
   Move moinhos. Tem poderes eólicos, misticos, ainda que tu lhe digas "és puro da água", retruco por defesa: tolo, ele controla gotículas concentradas na umidade do ar, o ar é água. E gritas: "o líquido afoga e o gás intoxica, vivo intacto das suas ações funestas". Tu és este rochedo que os homens sabem escavar, imponente, lindo e, pois bem, destrutível. Ficaste aí, enquanto conheci os redemoinhos e com eles me movo, vertigem, vórtice varão. Fui ao chão ou qualquer lugar, mesmo assim eu aprendi a dançar. O que me bateu eu absorvi, e como aquece absorver! embora uma parte eu tenha revidado, tais cores não me pertenciam.
   Sendo assim, ele que ficou sabendo as tuas boas novas, a gente sabe mui bem que fofocas são mais rápidas que o vento, não conseguiu esconder o sorriso. Não se importa com a tua dor, porque tu nunca se importou com a dele, quando ele era quente, pegava fogo de delírio febril, e transformava tudo em cinza, produzia em abundância o gás tóxico, e os fluidos apenas inflavam sua força. Até hoje o fogo da raiva aquece o coração, e por causa das tuas péssimas novas, esse desfacelamento ao vento dos teus últimos anos, o sorriso não se esconde do rosto. Ah, bonito, ele não te quer mal, mas faz um bem danado (ah, a danação) ver a ruína de tudo aquilo que o fez morrer. A fênix vem do fogo. Com esses sapatos, ele caminha por todos os tipos de caminhos, assim como em breve você fará, aproveite as dores do primeiros dias, ou dos próximos meses sem sapatos. 
  Por vezes a falta de ar toma conta em imagem, tudo é rarefeito, pois sem a redoma o ar está solto, a umidade seca, e não se sente a seguridade, mas solidão, somos pequenas partes desse sistema. Ainda que colossal o sol é frio. E eu sou pó, alvorecer. Sou gelo, refração. O céu e lágrimas.

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