domingo, 11 de agosto de 2013

Antes de Vir o Sono

Estou perdido. Não perdido em um labirinto de única entrada e saída, ainda que eu seja alvo fácil à besta meio humana, mas perdido entre mármore urbano em chamas. É o meu fim. Eu poderia conhecer essas ruas e saber que ao final dessa rua uma guinada à esquerda poderia me deixar de cara com a escada e ficar a salvo, poderia ficar livre, porque lá - onde eu posso chegar virando a direita aqui e subir por ali até que depois daquela vendinha para se deparar da mesma forma com a escada,  eu desceria deslizando pelo corrimão com os braços abertos ao berros, estou livre. Não. Estou perdido.
Sem muito esforço eu poderia memorizar o nome dessa, das paralelas, as que cruzam e até aquela torta que corta tudo num ziguezague maluco, saberia qual seria o menor caminho para ir daqui a qualquer lugar. Sem muito esforço, contudo o calor já me paralisa. Há muita fumaça, nem sei mais pensar ao certo. Eu poderia saber os caminhos, e tirar a névoa desses espaços e o tornar menos labiríntico, dizer com o orgulho dos céticos que sei onde estou pisando. Pisar no chão queima. O fogo crepita, avança. Minha pele arde ao calor, sinto tudo secar e tudo suja, fuligem. No rosto a vermelhidão é apagada pelo toque das cinzas. Pergunto se a morte será rápida que nem em Pompeia. Ou se, ao contrário do Vesúvio, eu poderia aplacar a fúria dos fogos com uma prece, com promessa de sacrifício, talvez de uma virgem, sagrada e imaculada, ou quem sabe de um boi, sagrado em sua castração.
Pergunto a um deus ou dois se há ainda salvação, mesmo que eu fique cego, com problemas pulmonares que certamente me levarão a outra morte prematura, porém mais longínqua no tempo. Prefiro a morte prematura vindoura do futuro não tão próximo a ter que acordar depois de horas inconsciente, por causa a inalação excessiva do carbono, para esperar nos braços o fim da vida. No meu rosto iria aparecer o lamento de desconhecer a geografia local. Eu não teria ideia de que rua você haveria surgido, e com o barulho nós nos viraríamos para assistir à queda de um prédio um pouco mais antigo, fragilizado pelo excesso de chamas. Por fim, eu sussurraria, estou perdi. Um longo acesso de tosse me interromperia, tiraria quase todas as minhas forças, diminuindo mais cinco preciosos minutos nos quais eu ainda teria vida nos teus braços. A tosse cessa. Nos meus olhos a súplica por alguma coisa, qualquer coisa, para que isso se torne menos a eternidade, e mais tosse, então fecharia o olhos tossindo, reuniria todas as minhas forças e as gastaria ao apertar o seu ombro, tão forte que ao fim da tosse eu já estaria morto com os olhos fechados. Não verias o meu olhar ao encarar a morte, que zombaria de mim: morreu por ignorância geográfica. Sempre tão atento aos dados precisos de um mapeamento, foi deixado de lado o orgulho de ter tal conhecimento, e foi seu fim.
A morte-antes-do-tempo desvanece assim que eu encontro a escadaria. Providência divida, deuses atendendo as preces. Brigado, brigado. Muito obrigado. A felicidade me cega e perco. Eu me perdi no cálculo de onde pisar nos ângulos retos da arquitetura geométrica das escadas de mármore. Um passo em falso, perco o ar, mas ganho o chão, ganho alguns hematomas no corpo, ganho contusões e, ao chegar ao nível mais baixo, ganho o troféu, como se sustentasse na cabeça a coroa de sangue iniciada por um esfolamento da fronde. Estou queimado e tossindo. Estou perdendo sangue. Estou perdido.
Não desmaio, alguém pergunta o meu nome, diz que eu preciso ficar consciente, porém eu queria apagar, a chama que parece queimar no meu corpo.  Bolhas da queimadura já surgiram. Por benção, o mármore aqui de baixo é frio, e por sacrifício, o mesmo mármore deve ter fraturado alguns ossos do meu esqueleto. Nunca perdi tempo procurando saber os nomes dos ossos, mas as ruas. Eu sempre me perdi nas ruas para conhecê-las, reconhecê-las, interligá-las por meio de outras ruas perdidas. Por diversão. Não foi exato por isso, diversão, que os deuses lançaram fogo nesse emaranhado que ainda não tem sentido na minha cabeça. Quase morto, eu não sei decifrar as razões dos deuses, ou do teu deus que tu chamas de acaso.
Vejo o sangue escorrer no mármore, o meu sangue, logo parece que é muito, sinto algo viscoso nas pernas, deve ser mais ainda. O quão cheio de sangue a gente é. Mais gente se aproxima, há muito desespero, já nem sei mais se sinto dor, nem sei mais se eu sinto. Mais alguém se curva para falar comigo, e cobre o sol que incindia sobre o meu rosto. Fecho os olhos. Ah! Como é doce a sombra, seria você preocupado, ou seria ela, a morte, querendo me acalmar antes de me levar a vida. Sinto que vou dormir. É você quem me beija? Queria que fosse. Imagino meus lábios se projetando a sua boca. Posso estar beijando a morte. Ou talvez o beijo seu seja meu ocaso. Você me mata com um beijo. A última coisa que eu lembro é um trecho de um filme francês que a gente viu junto:
"Eu conheci você.
Lembro-me de você.
Quem é você?
Você está me matando.
Você me faz sentir bem.
Como eu poderia ter duvidado de que esta cidade foi feita nos moldes do amor?
Como eu poderia ter duvidado de você foi feito nos moldes do meu corpo?
Eu gosto de você. Qualquer acontecimento. Eu gosto de você.
O que abrandar repentinamente.
Que doçura.
Você não pode saber.
Você está me matando.
Você me faz sentir bem.
Você está me matando.
Você me faz sentir bem.
Eu tenho tempo.
Eu lhe imploro.
Me devora."

É você? Que me persegue entre os moldes geométricos das placas de mármore, é você, que caminha por esse labirinto? É você a besta que eu topo de frente a cada curva desconhecida, é você que vai estar do meu lado quando eu acordar? Que me aquece quando durmo no mármore frio? É você que vai sujar suas roupas me abraçando ensanguentado? Que vai sujar suas roupas de terra e me enfiar num buraco? É você que ainda me beija, enquanto eu decido:
se eu acordo contigo
ou morro com o texto.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

#7

Minha vontade é a palma da minha mão esfacelando a tua bochecha. Ah o tapa, o estalo, e ver a cor te recompor a pele e a sanidade. Por favor, pare de me jogar esses apuros de falta da caso, de cansaço demasiado e falta de interesse, poupe o meu tempo das articulações mesquinhas do seu desejo de estar sozinho. Sei que o meu toque já te muda de ideia. Sei que um tabefe já te põe pronto. Sei que tu investe mais em imagem do som. E esse estalido surdo, e tudo muda, a tua face, lívida, pronta para vingança, pronta para o canto. Tu olhas para baixo por um tempo longo, um tempo mudo, então me encara. Um lado mais vermelho que o outro, e o teu olhar é mais violento do que eu jamais vou conseguir ser. E agora sou eu que devo apanhar. Eu me desvio e desviro e deslizo, quero escapar. Assim como tu, não quero me lograr espinhos, ou me cercar para o choque. É que depois deste abalo há o devir, e o furacão nos deixa ainda mais tonto, porque eu te encontrei bêbado, e ainda eram quatro da tarde. E ainda tu se fazia de difícil, porque tu queres que eu dê corda para tu acordares e despertares em mim toda a submissão de um teatro autorizado. Tu gostas que eu finja que não gosto. Ah o prazer, e estais bêbado a sussurrar todo o tipo de ordem em palavras chulas, e eu finjo que gosto, mas me enojo, e te bato outra vez, tão forte que tu te curvas ao chão e demoras para subir, sóbrio, e beijas e me arranhas e me jogas longe. Eu choro um pouquinho. Pro teatro de não gostar te excite ainda mais, e quem sabe eu ainda apanhe por um bom tempo, antes de querer levantar a mão de volta ao teu rosto. E quem sabe tu não percas um dente. Aí poderemos se beijar, e vou colocar a língua no espaço banguela do teu sorriso, que ainda está a jorrar sangue, para finalmente tu morderes com toda a força a minha língua, assim aos poucos a gente vai se despedaçando, se colecionando, se amando de prazer e dor.