quarta-feira, 11 de setembro de 2013

domésticos

   A televisão quebrou, e foi assim que eu conheci o teu toque. Aquilo com o qual eu sempre sonhei, durante toda a adolescência, e nunca consegui por certo fazer, anos mais tarde eu aprendi contigo. O toque quente das tuas mãos, em partes do meu corpo que eu nunca imaginei conhecer, embora eu já tivesse ouvido falar, fez que eu me esquecesse de cuidar daquilo que foi sempre ensinado por certo. A partir do conhecimento expansivo do mundo, a imagem que a "boa educação" fazia entender como única a ser seguida estabeleceu suas raízes na área da dúvida, o modelo da moral e dos bons costumes se mostrou como uma forma sem sentido. Conceito e padrão que oferece  o melhor da vida para quem mantém a linha. Essa linha, ou fio preso ao pescoço, corda imaculada que enforca qualquer tentativa de escapar, impedimento da jogada para aqueles que pisam fora da linha. A castração pela condição quadrada de levar uma vida confortável. Eu esqueci, eu finalmente obliterei a obsessão tirânica dos adultos de vida confortável.
  O microondas quebrou, e foi assim que eu conheci teu rosto. Fui obrigado a esquentar a comida na panela e me desfazer dos congelados próprios para microondas. Numa dessas idas para deixar as coisas que não prestam mais em algum lugar da rua, estava lá seu rosto, você meio distraído, meio esperando, meio perdido, você me viu, mas não sei, o sol batia na sua cara e tudo se tornava indiscernível, não sei, olhava na minha direção mas o sol excessivo não deixa eu ter certeza se era para mim. Então, eu larguei o lixo no chão, olhei de novo na sua direção, e foi minha sorte que esse ônibus passou e fez uma sombra milagrosa de deixar eu encontrar o seu olhar, o que me fez sorrir, essa constatação da certeza me faz sorrir às vezes. Talvez eu só me dê conta agora que foi você que me ensinou a ter gosto de viver sob o risco. Ou talvez foram os seus livros.
  A máquina de lavar roupas quebrou, e foi assim que eu conheci o teu mau-humor. Os dias encarcerados no quarto, as tardes de sábado lavando cuecas, faça sol ou chuva, a  mão gradativamente ressecando do sabão, o seu toque sem tesão. Dormia no sofá assistindo à tv, enquanto eu ia dormir mais cedo na cama com um pouco de frio, a geladeira vazia e o armário cheio de porcarias, calças jeans usadas até ficarem encardidas, e em casa o uso mínimo das roupas, você prefere só usar essa camiseta gg puída, e eu fico só de cueca, às vezes a casa está gelada, mas que se dane! Brigas na cozinha, lavar roupa e lavar louça. Coca-cola em lata até dizer chega, hidratantes para mão terminam, pastas de dente que os tornam mais branco. Você tira uma onda da minha cara, e quase me bate se eu faço o mesmo. Ficou sem roupas limpas e passou a usar as minhas.
  Aí um dia estava tudo funcionando, e você voltou para casa e me abraçou de um jeito que nem lembrava mais e a gente se beijou, e anoiteceu, e lembro muito bem que fui dormir com a sensação que eu era feliz.

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