segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Um Novo Quarto

  Deitada de um jeito incômodo, por impaciência de casa e vontades outras, vira, fica toda torta, toda bagunçada, o lençol escapando do colchão. Ela percebeu assim a rachadura na parede, discreta e torta, mas ali, onde ela se deita à noite, toda torta. Quis olhar mais reta para curvas da rachadura, o desenho sinuoso continuava cama abaixo e talvez dê a volta no chão. Dia após dia espicha um bocado até conseguir, com paciência milimétrica, dar a volta no quarto, esse inferno de quarto solitário no verão. Tu lá, aproveitando o conhaque nas veias e dançando axé sem gingado, como se fosse muito legal, muito a tua praia, cheia de de sol e cachaça, e quem sabe algumas mulheres que esfreguem suas pélvis na tua.
  A noite longe de acabar, pensa nos velhos acúmulos, os cd's empilhados no chão: fora, o chapéu: fora, as conchinhas coletadas da praia de um dia especial: fora, a camisa de cetim esquecida numa gaveta: lixo, fotos no mural: lixo, fotos da viagem a Portugal: rasgadas para te jogar no lixo, brincos não tão bonitos: lixo, scarpin roxo: Camila. Tudo indo em direção ao lixo, à ruína, ao fogo. Menos o scarpin que é muito lindo, e a Camila sempre quis emprestado e o tomar para si. Mesmo vocês nunca tendo se gostado, Camila te respeitava pelo bom gosto excessivo para sapatos. E o scarpin roxo era essa preciosidade, e tu já mostrava ciúmes quando a Camila apenas pegava o sapato. É dela agora. 
  A rachadura recém descoberta divide a cama em dois, o quarto com a bagunça das tuas coisas empilhadas na cama, todas do lado de lá da rachadura, do antes, da outra, tudo lá, ela de um  lado torta e com o par de sapatos da Camila, todas as outras tuas coisas do outro. Ela ficou olhando essa rachadura e pensou que podia dar um jeito, e como se uma nova mão de tinta extinguísse as lembranças dessa rachadura imensa que atravessa o piso de porcelana. Ela recuperaria a outra parte da cama, do quarto, mesmo que estivesse vazio de coisas. Ela teria uma cama inteira. É muito mais fácil para quem tem pouco aprender a dividir, então ela vai aprender esse sempre novo processo que é dividir a cama com alguém. Mesmo que a rachadura esteja curada por tinta, mesmo que a tua partida ainda se embrenhe nas suas entranhas.

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