quinta-feira, 3 de outubro de 2013

história sem fim

  A dor estrondosa da separação. O coração partido. As agruras do amor mal vivido. O músculo rasgado. O dissabor de um encontro ao acaso. Buraco no peito feito por broca. Ela olha e hesita, aí vem ela, ela chega bem pertinho, e ele perde um pouco do ar, e tenta disfarçar, contudo é visível o arfar acelerado na caixa torácica, os pulmões em plena força, enquanto o coração se contorce meio desfalecido para satisfazer os serviços de irrigação. Dá pra ver, por ali, ali no buraco aberto pela broca, tá vendo, isso, o troço tendo espasmos. Ele não aguenta, não há ar, ele respira fundo, mas é problema na bomba, nas válvulas, nos ramos a caminho de banhar as células, e como se pulasse para fora do corpo, como se fosse sobra de excesso de carne, uma vermelhidão pulsante brota do buraco-de-broca e, no seu próprio pulsar, salta o suicídio da dor de existir, de existir agora na frente dela, o limbo do esquecimento do que é ser diante do que foram. Chega ao chão com um som gosmento, a cara dela exibe o nojinho que tem desse troço estarrecedor no cimento, sem ao menos parar de pulsar, de tremer, ou de, o que é isso?
  Acho que é você, ou é o que você foi. Talvez seja o que você foi se transformando naquilo que eu acho que você é. 
  Não é bonito.
  Por que haveria de ser?
  Ela deu um abraço nele. Uma quentura escorreu no peito dos dois, e viram a vermelho manchando a pele, tornando rubro aquele abraço, e ela não conteve o grito. Correu. Ele se abaixou e colocou na mão o pedaço do coração, ele reconheceu que deveria ser um pedaço do ventrículo direito. Inclinou o que pôde da cabeça e, olhando o buraco aberto por broca, colocou indicador para sentir onde deveria encaixar aquele pedacinho. Sentiu a cavidade vazia, mas não segurou o desejo de fuçar um pouquinho mais. O dedo foi devagar descobrindo o que havia por ali, novos espaços foram descobertos. O coração estava todo vazado, seria isso mesmo? Vazado. Vazio. Perguntou se teria algum tipo de problema se retirasse o coração para o olhar melhor, logo percebeu que seu punho inteiro entrara pelo buraco feito por uma broca, e apalpava quase por inteiro, enquanto os dedos tateavam a superfície que apresentava esse sulcos, a carne erodida pela ação de tempos e tempos de amor. Ele via seu próprio coração como se fosse um cego, que enxerga através da percepção háptica.
 E por vidência vê tudo. Aqui onde se localiza a coronária, o nome dela. Ele lembrou o nome, o cheiro, o dente torto, o modo desajeitado que ela beijava de língua. Lembrou-se de Marisa.
 Que tontura domina a cabeça, que agudez se instala no centro da testa, o cenho franzido concentra um peso, e ele se vê obrigado a tossir. Por costume fatal retira a mão do buraco e cobre a boca com a mão. Ah, quanto sangue. Um banho, o banquete vermelho de um festim. Embriagado por lembranças de dor e dor real, ele demora para ver que um pouco esmagada a coronária/Marisa se encontra na sua mão. Mais um pedaço fora do peito. Tudo gira. Na embriaguez, cai no chão.
  Ele acorda numa cama, o quarto está escuro e frio. O peito ainda dói. Uma voz pergunta se ele está bem. Onde estou? Lembra-se de alguma coisa? Ele lembra.
  Ela chega bem pertinho, abraça um abraço frio, um sorriso cínico. Lembra que Marisa apareceu meio de repente com aquele namorado que ninguém gosta. Ela quer ir embora, mas antes pergunta se ele está bem, mesmo que não quisesse ouvir a resposta se ele não estivesse. Ele fala.
  Acho que estou bem. Só uma dor aqui no peito. Ele bate na altura onde deveria estar o buraco, e tec tec. Esse som de unha batendo no vidro. A voz assume um tom fraternal. É cristal.
  A voz conta que foi obrigada a fechar aquela ferida. Não parecia a princípio, mas era uma ferida. Retirei o coração, mas ainda podemos colocá-lo de volta. Descansa mais um pouco.
 A noite ele levantou para ir ao banheiro. O dono da voz estava dormindo ao seu lado. A cama rangeu com o movimento, e o outro perguntou se ele queria ajuda. Ele foi ao banheiro sozinho. Ao sair pediu um pouco de água para o outro, que acendeu as luzes em direção a cozinha, ele o seguiu. Na cozinha ele viu dois potes de vidro, dentro de cada um deles uma criatura indescritível, um monstro horripilante, uma nojeira escarlate. Duas!!! Dois. Um em cada. Ele foi dormir com a visão mórbida dos corações envidraçados, o dele e o coração do outro. Não pode mais dormir. O outro repousou a mão no peito de cristal dele. Ao poucos começou a esquentar. É difícil dormir com o peito frio, dormiram.
  Na quietude do sono, ambos não notaram os estranhos acontecimentos que ocorriam na cozinha. Os monstros ainda pulsavam dentro dos seus vidros, e suas palpitações faziam tremer os potes, ganharam vida até caminhar à beira do armário, e um novo suicídio se sucede, duplo, um após o outro. Os corações arrebentados pela queda, perfurados pelo vidro estão espalhados pelo chão em diversos pedaços que pulsam sozinhos esperando a morte.
  Ele sonhou. Dia de sol e brisa quente. Maconha e bebida. O sorriso da Tereza girando num gramado florido, dançando com Carlos. Os dois se beijam. Mas quem é Carlos? Ele sonha que o outro está do seu lado, e o outro chora apoiado ao seu ombro. O outro solta um grito, escorrega ao chão, esmorecido sussurra o nome de Carlos, está num pesadelo. Ele olha novamente para Sabrina que já não dança e vem na sua direção, ela chega bem pertinho, porém se abaixa para beijar o outro. Ele sente o cristal do peito trincar, ou vai ver é só vidro. Uma mão pega o seu pescoço, ele se vira e é o Carlos, mas quem é Carlos? Carlos o beija.
  Acorda sozinho na cama.
  Algo que já te pertence e é arrancado de dentro de ti, mas que de certa forma continua dentro. Não sai, te pertence. O tempo não cura, só causa esquecimento, é preciso esquecer para criar com o acumulo de pó na memória.  Eu sei contar uma história de amor, já estive lá.
  Tu  aprendes a conviver rasgado. Mesmo que tu queiras que eu te fulmine, e assim me destrua. Mesmo que o amor parta novamente, é mais um pedaço arrancado do pedaço,

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