sábado, 16 de novembro de 2013

licantropia

 A areia da praia estava escaldante. Já era tarde, o sol não mostrava sinais de que daria uma trégua, no céu nenhuma nuvem ousaria brandir-se branca como bandeira. A pele mal cuidada arderia a noite inteira, como se um pedaço do sol se instalasse em nós, e poderíamos queimar a tudo, até nos mesmos, e incendiaríamos a noite em claro, consumidos por um tipo de insônia; tive cuidado eficaz na proteção da epiderme, chega a noite e apenas um hidratante após o banho resolve qualquer perturbação do ressecamento. A noite é branda.
 A lua é cheia de luz para a praia inteira, e seria um pouco mais lindo se tu estivesses aqui comigo para depois de muitos verões lembrarmos de como a luz daquela lua tão cheia iluminava toda a extensão do mar calmo, que há muito tempo não vejo. Não vejo um mar calmo assim há anos. É sempre um agito, uma ressaca, o incansável vai e vem das ondas, tudo espuma e borbulha como nessa tarde em que o mar ferve calmo, ainda mais calmo quando esfria nessa noite, numa praia amplamente iluminada por uma lua cheia de pensamentos de ti. De como tu encostaste a mão na minha, só um roçar de pelos, de como sinto arrepiar tudo e ajeito a posição da coluna, quase sempre corcunda, para uma retidão da nuca e um movimento que acalma os poros, e tu me beijarias, e eu te beijaria. Um logo beijo intercortado pelo primeiro eu-te-amo que tu falaste sem ao menos olhar no meus olhos. Eu lembraria zombeteiro muito verões depois do modo desajeitado como um adolescente nervoso. Defenderias teus atos com convicção, aquela dos adolescente transbordantes de razões e novas verdades sobre o mundo, assumirias que tinhas medo de que eu não tivesse dito eu-te-amo de volta, que alguma nuvem cobrisse a lua, e reinassem as trevas.
 Numa noite amena de verão de brisa fresca e poucas nuvens, nada esfria a saudade de ti. Mesmo sabendo que teu toque virá logo, embora as nuvens já estão aqui. Se não ousam a luta contra o sol, ah! contra a lua se reúnem para tentar guerrear com sorte. Ainda que cheia e mais próxima que a estrela, a lua pode ser facilmente abatida por um grupo sorrateiro, que ganha em velocidade com a ajuda do vento. Eu preferiria em ti a trans-muta-forma-ção de um lobo a ter que te perder nas sombras da lua nublada. Deixaria o meu trapézio a mostra para tu afiares os dentes até que o tédio de brincar com a carne estraçalhada abatesse sobre ti, e irias embora correndo por uma floresta de pinos, e de manhã nós iriamos acordar. Tu pelado e sujo e eu no teu colo fraco, arranhado e mordido. Estarias muito cansado para cuidar de mim, afinal é fatigante ser um lobo da noite.
 Eu durmo na areia, acordo com a água bem fria batendo nas minhas pernas. Não é dia, contudo a luz do céu é quase um azul que indica o fim da noite, não há lua. Fico a pensar onde você terá acordado, nu e só, em qual floresta distante. Penso em te ligar, mas os pelados não andam com celular. Algo dói e a água fria chega nas coxas, o céu ganha mais tons. É como um período de mudança perceptível, sabemos que está sempre mudando, mas nunca é tão rápido e lindo quanto o amanhecer.  Quase nunca vemos o dia amanhecer, estamos deitados abraçados, e isso parece mais bonito que qualquer dia de sol. No dia que a gente se conheceu chovia muito. Algo dói no ombro, a água já bate na cintura, e talvez o sol esteja chegando no horizonte do mar. Tento me levantar, doem as costas e acho que não vou conseguir, deito de volta e tudo arde. Sangue, areia, salmoura. Toco o lugar dessa mordida só para confirmar com os dedos rubros. Fico feliz que estiveras aqui. Uma pena que já teve de partir.  

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